sexta-feira, 12 de junho de 2015

ARTE no RIO GRANDE do SUL - 04

As ARTES VISUAIS da CONTRARREFORMA e 
o RIO GRANDE do SUL.

01 - PROJEÇÕES ESTÉTICAS COLONIAIS IBÉRICAS na AMÉRICA.
01.1 – A Arte da Reforma e Contrarreforma 01.2 – Maneirismo, a Propaganda da Fé e o Barroco
01.3 – O suporte conceitual da Propaganda da Fé e do Barroco. 01.4 – A Arte da Reforma e Contrarreforma na América.
02 - O AGENTE DAS PROJEÇÕES ESTÉTICAS
02.1 - O jesuíta entre “comandero” e o “bandeirante”. 02.2 – A origem do jesuíta. 02.3 – O papel do Jesuíta junto ao índio. 02.4 – A ruptura das interações simbólicas entre o jesuíta e o índio.
03 - LEITURAS da RECEPÇÃO das PROJEÇÕES ESTÉTICAS COLONIAS  IBÉRICAS. 03.1 - Os resultados das Missões para o indígena.  03.2 – O cenário das Missões após o jesuíta  03.3 – A reação do Iluminismo diante do cenário das Missões
04 – As TARDIAS  PROJEÇÕES  ESTÉTICAS LUSITANAS COLONIAS no  RIO GRANDE do SUL
05 - A RETOMADA das LEITURAS e ESTANCAMENTO da ENTROPIA
05.1 – As soberanias nacionais e Arte das Missões.  05.2 – A Era Industrial e a Arte das Missões.  05.3 – A Era Pós-Industrial e a Arte das Missões. 05.4 – As ruínas das Missões e a Época das Incertezas.
Foto : Edelweiss Bassis
Fig. 01 –  Lintel  de porta na Missão de San Ignácio Mini, de 1632, atual Província de Missiones, Argentina - Patrimônio Mundial da UNESCO em 1984,  cantaria  detalhe das ruínas. 

01 - PROJEÇÕES ESTÉTICAS COLONIAIS 
IBÉRICAS na AMÉRICA..
O Regime Colonial Ibérico comandou variadas manifestações e expressões das Artes Visuais sul-rio-grandenses. Estas projeções são índices significativos da heteronomia estética resultante da dependência social, política e econômica deste Regime Colonial.
No aspecto estético a EMOÇÃO e a EUFORIA mediterrânea, cultivadas nos países ibéricos, foram acentuadas pelas descobertas da América e do Brasil. No contraponto  esta EMOÇÃO e a EUFORIA coletiva foi duramente testada e questionada pela LÓGICA e pela RAZÃO nórdica[1]. A REFORMA LUTERANA, desencadeada em 1519, colocou a LÓGICA individual no mundo a RAZÃO e comandada pela leitura da Bíblia que Martinho Lutero verteu para o alemão. Em resposta o mundo mediterrâneo desencadeou a CONTRARREFORMA. Nesta contraofensiva o Concílio de Trento (1545-1563) moldou conceitualmente, municiou e ativou o projeto da PROPAGANDA da FÉ.



[1] - Ver o conflito mediterrâneo (Einfülung)  e nórdico (Abstraktion) em 
WORRINGER,  Wilhelm (1881 - 1965).  Abstraccion y naturaleza.  (1ª.ed. em1908).  México :  Fondo de Cultura   Econômica, 1953. 137p.

Fig. 02 –  A concepção e a feitura dessa obra das Missões Jesuíticas pode ser remetida a tendência TENEBRISTA  no âmbito do MANEIRISMO. Porém é apenas uma das sugestões. De fato  não é possível remeter qualquer obra das Missões ao rigor ao puro de uma tendência de um estilo  . Por mais distantes e deslocadas da matriz europeia e surpreendam pelo seu acabamento formal, não deixam de estar na heteronomia colonial e na qual perdem qualquer legítima sanção estética. De outra parte não escapam também de um ecletismo e permite associar a tantos outas tendências estéticas que o colonizador exportou por diversas vias econômicas, políticas e sociais.

MANEIRISMO


01.2 – O Maneirismo, a Propaganda da Fé
 e o Barroco.
A cultura europeia, dilacerada e dilacerante, neste meio tempo mergulhou de cabeça no MANEIRISMO. No lado dos países ibéricos e mediterrâneos este MANEIRISMO se configurou pela EMOÇÃO e pela EUFORIA proveniente dos resultados das riquezas das descobertas marítimas. Nestes países ibéricos e mediterrâneos as manifestações das Artes Visuais  se expressaram pelos meios estilísticos conhecidos como BARROCO. Meios estilísticos depurados e intimamente controlados pelos princípios da CONTRARREFORMA e PROPAGANDA da FÉ.
Projeto da CONTRARREFORMA e PROPAGANDA da FÉ sustentado humanamente pelo militarismo da Companhia de Jesus, fundada em 15 de agosto de 1537. Coerente com EMOÇÃO e a EUFORIA o projeto estético CONTRARREFORMA ganhou o mundo apostando na  PROPAGANDA da FÉ com a qual bombardeava os sentidos humanos. por saturação completa e continuada.
Fig. 03 –  Apesar dos danos do tempo esta escultura em madeira policromada surpreende pelo acabamento e expressividade humana. Uma das obras conservadas no Museu das Missões de São Miguel  antiga capital dos SETE POVOS do lado esquerdo do Rio Uruguai

01.3 – O suporte conceitual da 
Propaganda da Fé e do Barroco.
 A leitura dos Exercícios Espirituais, escrito pelo fundador da ordem dos Jesuítas, fornece preciosos subsídios para entender este projeto e sua eficácia universal na cultura humana. Os cinco sentidos humanos ganham a centralidade e deles depende a eficácia do projeto. A leitura de um trecho deste  texto elucida este princípio e o rumo  que a PROPAGANDA da FÉ conferiu à EMOÇÃO e  EUFORIA mediterrânea e  ibérica.
 QUINTA CONTEMPLAÇÃO
121 – Será aplicar os cinco sentidos sobre a primeira e segunda contemplação. Depois da oração preparatória e dos três preâmbulos, aproveita passar aos cinco sentidos da imaginação pela primeira e segunda contemplação, da maneira seguinte:
122 – Primeiro ponto é ver as pessoas, com vista imaginativa, meditando e contemplando em particular as suas circunstâncias, e tirando algum proveito desta vista.
123 -  Segundo ponto: ouvir, com o ouvido, o que falam ou podem falar, e, refletindo em si mesmo, tirar disso algum proveito.
124 – Terceiro ponto: aspirar e saborear, com o olfato e com o gosto, a infinita suavidade e doçura da divindade, da alma e das suas virtudes e de tudo, conforme a pessoa que se contempla. Refletir em si mesmo e tirar proveito disso.
125 – Quarto ponto: tocar, com o tato, por exemplo, abraçar e beijar os lugares que essas pessoas pisam e onde sentam; sempre procurando tirar proveito disso”
Ignácio de LOYOLA (1491-1556)  Exercícios ESPIRITUAIS[1] ( 1ª impressão em 1548)[2]

Se hoje a ruína deprime o ser humano, do outro lado, o que sobrou das Missões, demonstra que a criatura humana torna-se histórica na medida dos seus projetos, incluindo aqueles fracassados. Esta historicidade é reforçada  pela concepção de Le Corbusier[3] (in Boesiger, 1970, p.168) de que “nada é transmissível a não ser o pensamento”.



[2] - Ignácio de LOYOLA (1491-1556) EXERCÌCIOS ESPIRITUAIS[2] ( 1ª impressão em 1548)

[3] BOESIGER, Willy .  Le Corbusier Les Derniers  œuvres  Zurich : Artemis, œuvres complètes 1970, , v.8,  208 p.


Fig. 04 – As duas nações ibéricas mantiveram políticas distintas na colonização da América do Sul Estavam, porém, no mesmo projeto da CONTRARREFORMA comandada e coordenada por Roma orientada pelas teses do Concílio de Trento. Como forma de expressão os colonizadores ibéricos usavam uma agressiva PROPAGANDA da FÈ e se materializava e no BARROCO derivado dos experimentos estéticos do Maneirismo. Os agentes mais notáveis e coerentes PROPAGANDA da FÈ foram os integrantes da Companhia de Jesus e orientados pelos pensamentos e escritos de Inácio de Loyola - Iñigo López (1491-1556)
[clique sobre o gráfico para ler]

01.4 – A Arte da Reforma e 
Contrarreforma na América.

A América colonial Ibérica foi uma imensa reserva humana e religiosa que municiava economicamente a Igreja Católica no seu projeto da CONTRARREFORMA em confronto com a REFORMA e REFORMADORES.
O território do Rio Grande do Sul esteve envolvido no projeto da PROPAGANDA da FÉ tanto pelo lado lusitano como pelo castelhano. A  sua Arte foi moldada conceitualmente, de ambos os lados, pela CONTRARREFORMA longo de 330 anos de sua primeira história na versão europeia. Porém - apesar deste mesmo projeto da PROPAGANDA da FÈ e da CONTRARREFORMA - não é possível imaginar uma unidade ibérica. Até os dias presentes       a Espanha mantém internamente no seu território profundas tensões nacionalistas e separatistas. Externamente  as tensões e atritos da Espanha com o limítrofe Portugal se arrastam, também,  até os dias atuais[1].
Um projeto estético sempre anda intimamente associado e interage com o projeto político, econômico e social no qual se manifesta. As Missões Jesuíticas no Rio Grande do Sul evidenciam  como esta relação existe, mesmo que não seja percebida pelos seus agentes.
Na fronteira oeste do atual Rio Grande do Sul constituiu-se, nos séculos XVII e XVIII, uma parte de um vasto laboratório de uma experiência econômica, social e cultural. Experiência que buscou conectar um projeto transcendente, comandado em nome da religião com o mundo empírico da percepção dos sentidos humanos.



[1]  Um exemplo desta multissecular tensão é a situação da cidade e região de OLIVENÇA¿ OLIVENÇA ou OLIVENZA.

Fig. 05 –  Um dos temas constantes das esculturas missioneiras são as figuras proeminentes da ordem Companhia de Jesus (jesuítas).. Um dos mais eminentes foi Francisco Borja (1510-1572)  Duque de Cândia e conselheiro da ordem. Foi canonizado em 20 de junho de1670  Esta obra escultórica remete à EMOÇÂO e a busca estética da sua EXALTAÇÂO PLÀSTICA por meio da gesticulação do orador, as diagonais da figura e falta de um eixo central acentuadas pela intensa  carnação. 

02 - O AGENTE DAS PROJEÇÕES ESTÉTICAS
02.1 - O jesuíta entre “comandero” e o “bandeirante”.

Na percepção das estratégicas do indígena guarani o jesuíta foi acolhido inicialmente por outras razões. Os caciques e suas tribos adotaram o jesuíta como a sua única saída viável, para escapar com vida entre duas letais presenças concretas dos “comanderos” espanhóis e dos “bandeirantes” lusos[1]. Neste trágico cenário, que se formou neste confronto entre espanhóis e portugueses, foi visto como salvação.
Paralelamente o indígena guarani aderiu ao projeto do qual o inaciano era portador. Ajudou a montar os cenários das Missões Jesuíticas seduzido pela NOVIDADE, EMOÇÃO e pela EUFORIA.  O inaciano era tributário, por sua vez, da  CONTRARREFORMA, das teses do Concílio de Trento, da  PROPAGANDA  da FÉ e do MANEIRISMO[2]. Período crítico ao longo do qual Galileu Galilei (1564-1642) reforçou, com a suas descobertas, a concepção de que “o ser humano não era mais a medida de todas as coisas e nem a Terra o centro do Universo” como o Renascimento italiano mais ortodoxo ainda acreditava.



[1] , ,  como já foi visto no texto relativo às MANIFESTAÇÔES e EXPRESSÔES das ARTES VISUAIS no RIO GRANDE do SU Artes visuais indígenas sul-rio-grandenses   http://profciriosimon.blogspot.com.br/2015/06/arte-no-rio-grande-do-sul-03.html

[2] HAUSER, Arnold (1892-1988) Maneirismo: a crise da renascença e surgimento da modernidade (2ª ed,) São Paulo: Perspectiva, 1993 463 p. il.
Fig. 06 –  A carnação parcial – cabeça e mãos – desta obra escultórica destaca a madeira da base e a habilidade em lidar com este material abundantes nas florestas da América do Sul.  Com o tema da figura de Inácio de Loyola - Iñigo López (1491-1556) presta homenagem ao fundador da Companhia de Jesus (jesuítas). As figuras proeminentes desta ordem são temas constantes destas esculturas missioneiras..

02.2 – A origem do jesuíta.
A base operacional da ordem jesuítica vinha de extrações de camadas populares europeias com poucos recursos conceituais, patrimoniais próprios e individualmente preso, à uma guilda medieval europeia, pelos seus juramentos, votos e contratos. Há necessidade de distinguir os membros plenos da ordem e os “irmãos” coadjuvantes. Com esta parca autonomia pessoal era incapaz de exercer uma crítica isolada à ’propaganda da fé‘ e flexibilidade para fazer frente a uma cultura construída na dialética entre a `culpa e o perdão´. Entre os jesuítas existem diferenças de tendências e gostos entre o luso, o espanhol e o tirolês. O jesuíta luso dedicou-se às escolas, soube afirmar-se através do formalismo jurídico apreendido em Coimbra e atuou mais na Colônia brasileira. O jesuíta espanhol cultivou os hábitos dos nobres hereditários da sua terra, ao exemplo do  fundador da ordem e de administradores inteiramente devotados ao Rei e a Espanha. O técnico e o obreiro era o tirolês (austríaco e bávaro). Quanto à disciplina formavam um exército de ‘Soldados da Companhia de Jesus’ no qual todas essas tendências foram unidas em rígidas hierarquias e normas impessoais. Quanto ao trabalho o jesuíta integrava-se a uma macro guilda medieval onde todos trabalhavam desinteressadamente para a maior glória de Deus. O índio acabou sendo a base desta guilda e nodalmente presa ao centro das decisões através dos seus próprios caciques cooptados pelo jesuíta[1].



[1] - - Langer escreveu que “ a instância política de maior expressão na sociedade tribal, o `cacicazo´, teve as suas antigas prerrogativas respeitadas pelos jesuítas “ Ver também Meyer, 1960

Fig. 07 –  A grande maioria das implantações doas Missões Jesuíticas, do lado 
esquerdo do Rio Uruguai, deu-se ao longo da UNIFICAÇÂO IBÈRICA. Neste período estavam sendo implementadas as ORDENAÇÕES FILIPINAS e transpostas para as urbanizações do “Império onde o Sol Nunca se Punha”.. O comerciante  francês  Arsène Isabelle, fez, em 1834, uma descrição ( 2006; p. 195-196) deste planejamento aplicado nos Sete Povos das Missões do atual Rio Grande do Sul

02.3 – O papel do Jesuíta junto ao índio.
O jesuíta exercia a função de sacerdote e burocrata, não o xamã, ou o profeta competente para transformar a partir das vivências concretas do meio indígena. Como sacerdote ele tinha apenas a administração formal da religião e comportou-se como burocrata até o último momento, sem capacidade pessoal de discutir as razões de sua expulsão do Rio Grande do Sul. Como soldado obedeceu cegamente, sem raciocínio pessoal e sem sentir empatia humana de quem deixava atrás de si. A ascensão do jesuíta às funções de mando e de hegemonia cultural, entre os índios, com o poder de uma ação pedagógica institucionalizada, levou esse homem para um exercício burocrático e formal da autoridade que de fato não era dele, mas que permitia somente limitadas formas de interação humana com a base.
Na divisão contemporânea do trabalho o jesuíta cumpria papel semelhante ao administrador e ao designer do sistema de entrada, elaboração e saída de produtos da linha de montagem da fábrica. O indígena deveria ser preparado, treinado e comandado em todos os passos deste processo produtivo.
A estrutura urbanística de cada concentração urbana [REDUÇÃO] obedecia a um plano superior foi observado in loco em 1834 pelo olhar francês Arsène Isabelle ( 2006; p. 195-196)
“...as Missões do Uruguai são todas, mais ou menos, construídas sobre o mesmo plano, basta descrever-se uma para se ter ideia das outras.
Sobre três lados de uma praça, de quinhentos pés de comprimento por quatrocentos de largura, são construídas pequenas casas térreas de argila ou madeira, distribuídas de maneira a formarem habitações mais ou menos semelhantes. Um teto de telhas cobre essas habitações e avança sobre a fachada,  formando na praça uma espécie de peristilo ou galeria aberta, sustentado, de distância em distância, por pilastras quadradas, feitas de cantaria cor-de-rosa.
No lado norte da praça, estava situada a igreja, verdadeiro teatro, quanto ao luxo de ornamentos e de detalhes interiores. Por fora, nada tinha de notável; viam-se, simplesmente, quatro muralhas de cantaria, encimadas por um teto de telhas, e por uma pequena torre quadrada que formava internamente uma cúpula. Só o frontispício destacava-se do resto, por ter sido esculpido artisticamente pelos índios, sob a direção dos jesuítas, e por não ter entrado em sua construção, como também na das outras habitações, nenhuma guarnição de ferro.
Um pórtico, sustentado por colunas de madeira dura, ocupava a fachada da igreja, em cujo recinto se entrava por uma escada quadrada, de poucos degraus.
À esquerda da igreja estava situado o colégio, atrás do qual estendia- se um soberbo jardim plantado de laranjeiras, limoeiros, figueiras, plantas indígenas, etc., e cercado de um muro de pedras em toda a sua tensão.
O colégio, como é de imaginar, era confortável e solidamente construído.
Ao lado, ficava um hospital e viam-se em seguida oficinas públicas, lojas  públicas, cozinhas públicas, etc., etc....”

Neste cenário as Artes Visuais tinham um papel preponderante na pauta da ‘propaganda da fé’. No âmbito destas “REDUÇÕES” o indígena transformou-se num típico artesão[1] de uma guilda medieval sob a orientação jesuítica de fala espanhola. A sua autonomia artística é duplamente limitada pela sua posição de base dentro dessa guilda, na qual é um eterno aprendiz, e do outro um objeto de ideológica-proselitista da Contrarreforma Inaciana, que temia o seu retorno no mundo mágico.



[1] - TREVISAN, Armindo. A escultura dos Sete Povos. Porto Alegre : Movimento, 1978, 112 p

Museu Júlio de Castilhos de Porto Alegre.
Fig. 08 – A fecundidade feminina e a sua sensibilidade para com a sua prole são cultivadas pelas mulheres descendentes indígenas e que ocupam as calçadas e praças das atuais cidades sul-rio-grandenses. Encarregadas da alimentação cumprem também o papel do ensino à nova geração emergente da língua da tribo. O autor, desta escultura missioneira sul-rio-grandense, transferiu estes virtudes femininas para o plano místico, conservando nítidos traços étnicos destes povos.

02.4 – A ruptura das interações simbólicas
 entre o jesuíta e o índio.
O índio não teve menor condição de acreditar e a descobrir a si mesmo ao longo do período missioneiro. O arcabouço do poder das Missões não havia entrado em interação humana com ele e nem repassado o efetivo núcleo do poder político efetivo. Os índios acabaram incorporando-se à cultura europeia filtrada, que o soldado da Companhia de Jesus  lhe impunha como preço da sua salvação. A cultura, imposta ao guarani, acabou se ritualizando e formalizando. A capacidade imitativa e a natural curiosidade humana, fizeram com que o índio sul-rio-grandense acabasse se perdendo no oco da Contrarreforma Inaciana que primava pela propaganda e publicidade dirigida aos sentidos humanos, e não para a lógica, a razão e a autonomia.
Depois de 1756, quando o jesuíta foi extirpado do comando, o índio missioneiro não teve condições de continuar o processo produtivo e da civilização que o comandava, treinava e preparava política efetivamente. O indígena já não tinha condições de retornar aos próprios valores destruídos e aniquilados por inúmeros argumentos e vertentes coloniais. Restou o seu silenciamento perceptível nos seus descendentes espalhados por praças e cidades contemporâneas.
Exposição de obras missioneiras no Museu de Arte do Rio Grande do Sul em setembro de 200 com itinerância por outras capitais do MERCOSUL
 Fig. 09–  As esculturas missioneiras - despojadas do seu cenário e função - possuem a mesma dificuldade de toda produção estética arrancada de sua origem, sociedade e suporte econômico. É a mesma dificuldade das esculturas africanas num museu antropológico numa metrópole colonial ao exibir os troféus das suas conquistas. No contraponto estas obras deslocadas cumprem o mesmo papel civilizatório, avisos e mensagens da cultura grega nas mãos dos conquistadores romanos. Nestes termos fazem pensar na época helenística das duvidas e incertezas. Na cultura pós-industrial as obras das Missões Jesuíticas são índices da necessidade de não perder a continuidade de uma civilização mesmo que estejam no extremo oposto. Assim os extremos se tocam e garantem a possibilidade da continuidade.

03 - LEITURAS da RECEPÇÃO  
das PROJEÇÕES ESTÉTICAS

03.1 – As Missões nas interações entre a política e a Arte
A queima da etapa das Missões Jesuíticas no Rio Grande do Sul é exemplar para evidenciar como o projeto político e o estético andam intimamente associados e interagem em profundidade, mesmo que essa relação não seja percebida e elaborada pelos seus agentes.
A imagem das obras de arte das Missões Jesuíticas[1] não foge de uma posição crítica proveniente das suas desproporções e rusticidade, por mais especular que seja.  A imagem isolada de um anjo ilustra bem estas desproporções e rusticidade, apesar da sua cor que ostenta. Esta desproporção possui sentido didático e expressivo para o seu observador  do qual não se conhece nenhuma crítica do que recebia.
Na erudição dos inacianos, aprendidos nas melhores escolas de sua época, percebem-se nas suas obras os padrões da escultura europeia que mergulha as suas raízes na escultura gótica e soma elementos que chegam ao Maneirismo como é o caso de José Brasanelli.
A academia e a erudição não fizeram mal a este jesuíta e nem o colocaram em conflito com a sua fé. Ao contrario, do alto de sua formação erudita pode contemplar o panorama da mesopotâmia formada pelos rios que deságuam no Rio da Prata e descer a planície com projetos consistes e coerentes com o meio físico e cultural. Isto incluía a desproporção intencional,  a cor das carnações e do panejamento. Recursos estilísticos que mostram o alto grau de sensibilidade plástica e ao mesmo tempo a sobriedade que lhe confere todo o cunho devocional. Muitos dos rostos de santos, parecem inspirados no “Belo Deus” do mainel da catedral de Amiens, do qual possuem os traços fisionômicos.
RUINAS da REDUÇÃO de SÃO MIGUEL ARCANJO litografia de Alfred DEMERSAY em 1846
Fig. 10 –  Logo após e Revolução Farroupilha as ruinas da capital da Missões Jesuíticas encontravam-se no meio da vegetação e registrada pelo médico francês Alfred Demersay em litografia. A intervenção de Lúcio Costa aconteceu um século após ser realizada esta gravura
Visitas às MISSÔES de ROBERT AVÉ-LALLEMANT ás MISÔES em 1858


03.2 – O cenário das Missões 
após os jesuítas
Depois de 1756[1], quando o jesuíta foi extirpado do comando, o índio missioneiro não teve condições de continuar o processo civilização. A destruição dos valores indígenas possui inúmeras vertentes e argumentos que impulsionaram o seu silenciamento. O índio não teve, ao longo do período missioneiro, menor condição de acreditar em si mesmo. O arcabouço do poder das Missões não havia entrado em interação humana com ele e nem repassado o efetivo núcleo do poder. Os índios haviam se incorporando à cultura europeia filtrada, que o soldado da Companhia de Jesus  lhe impunha como preço da sua salvação. A cultura, imposta ao guarani, acabou se ritualizando e formalizando. O índio sul-rio-grandense acabou se perdendo no oco da Contrarreforma Inaciana mantida pela propaganda e publicidade, dirigida aos sentidos humanos, e não a LÓGICA, a RAZÃO  com o objetivo de permitir contratos e a autonomia ao indígena. Nestas condições a ruína do projeto civilizatório inaciano em solo do atual estado do Rio Grande do Sul era inevitável.



[1] GOLIN, Tau. A Guerra Guaranítica: como os exércitos de Portugal e Espanha  destruíram os Sete Povos dos  jesuítas e índios guaranis no Rio Grande do  Sul. (1750-1761).    Passo Fundo : PUF e Porto Alegre : UFRGS,   1998. 624 p.

Fig. 11 –  A ocupação progressiva, oficial lusitana do atual território do Rio Grande do Sul já se fez sob a política comandada pelo iluminismo.  Ganhou impulso e visibilidade sob o marquês de Pombl ministro do Rei Dom José. Um dos agentes foi  MANUEL JORGE GOMES de SEPÚLVEDA (*16.04.1735 +28.04.1814) foi duas vezes governador do Rio Grande do Sul entre 1769 até 1780. Conhecido sob o heterônimo de JOSÉ MARCELINO FIGUEIREDO em Porto Alegre. No princípio do seu governo ele estava sem comunicação com o mar devido à ocupação, a partir 12. 05.1763,  pelos castelhanos comandados por Dom Pedro Ceballos da 1ª capital a cidade de Rio Grande. Dom Sepúlveda transferiu a Capital para Viamão (2ª capital) . Em 1773 alojou a capital para Porto Alegre (3ª capital). A parir deste ponto reconquistou São José do Norte para Portugal em 06.06.1776. Graças a um tratado ibérico ele retomou definitivamente a cidade de Rio Grande

03.3 – A reação do Iluminismo diante 
do cenário das Missões.
A cultura europeia reagiu por meio
 do ILUMINISMO guiado pela RAZÃO e pela LÓGICA. ILUMINISMO que se opôs ao MANEIRISMO e às TENDÊNCIAS ESTÉTICAS BARROCAS. Denunciou a PROPAGANDA da FÉ pelo uso imoderado da EUFORIA e da EMOÇÃO. 
Este polo oposto se expressou por meio da politica  e pelos denominados TIRANOS ILUMINADOS.
Nesta outra face do Regime Colonial as expressões e as manifestações das Artes Visuais sul-rio-grandenses tiveram da abandonar, desqualificar e esquecer as Missões Jesuíticas e as suas manifestações estéticas.
A leitura ILUMINISTA das MISSÕES JESUÍTICAS - realizada pela RAZÃO cultura europeia LÓGICA e a sua viva desqualificação - possui variadas fontes e argumentos. Para uma única amostra desta denúncia basta ler o registro da viagem às Missões, realizada no primeiro semestre de 1834 pelo comerciante francês Arsène Isabelle. Ele descreveu ( 2006:197)[1] uma visita à antiga igreja missioneira abandonada de São Borja:
Hesitamos algum tempo, antes de visitarmos a igreja, porque temíamos que seu teto desabasse de um momento para outro. Cada vez que o vento sopra, desprendem-se do alto enormes vigas que, rolando com estrondo, sacodem o resto do antigo edifício, cuja forma é um quadrado longo sem corpo lateral nem campanário. À entrada do coro, sobre a tribuna, elevava-se a cúpula de madeira, de que falei, decorada de belas pinturas. Duas filas de colunas também de madeira, de ordem toscana ou rústica, sustentavam o teto e formavam uma nave. Os ornamentos tinham sido retirados. Restavam, apenas, dois altares laterais; mas encontramos grande parte dos ornatos do coro, amontoados desordenadamente em duas peças, que serviam outrora de sacristia. Os dourados ainda estavam em bom estado; os jesuítas tinham sido pródigos com eles, como também com as imagens e pinturas. Esse conjunto de capitéis, de frontões, de colunas torcidas, estriadas ou lisas; esses quadros, esses ornamentos sobrecarregados de dourados finos, essas pinturas notáveis e delicadas esculturas, esses santos de todos os tamanhos, de todas as ordens monásticas, destinados a representarem um papel importante no meio de um povo de neófitos facilmente crédulos, tudo isso nos deu a impressão de um depósito de teatro e nada mais... Senti uma grande piedade, pensando na condição miserável dos cristãos, cuja sorte se decide num concílio de Trento ou na cela de um discípulo de Loiola, sobre este tema fundamental: todos os meios são bons para fascinar os povos!... Mas da piedade passei prontamente à indignação, vendo santos em tamanho natural, cujos olhos móveis dentro das órbitas podiam derramar lágrimas de sangue!... enquanto outros santos tinham por missão especial fazer sinais negativos ou de aprovação com a cabeça ou com as mãos!!!
Este registo  da Viagem ao Rio da Prata e ao 
Rio Grande do Sul é um dos contrapontos do
 uso exagerado e imoderado da EUFORIA, 
da EMOÇÃO e da PROPAGANDA da FÉ.



[1] - ISABELLE, Arsène  (1807-1888) Viagem ao Rio da Prata e ao Rio Grande do Sul ; tradução e nota sobre o autor Teodemiro Tostes ; introdução de Augusto Meyer. -- Brasília: Senados Federal, Conselho Editorial, 2006. XXXII+314 p. -- (Edições do Senado Federal ; v. 61)

Fig. 12 – Em relação ao atual território do Rio Grande Sul era pequena faixa de terras controladas pelos lusitanos no início do governo de MANUEL JORGE GOMES de SEPÚLVEDA  Na área efetivamente controlada pelo castelhanos se instalaram e ocuparam os campos as Sete Povos das Missões. Esta ocupação ocorreu ao longo do período da UNIFICAÇÂO IBÈRICA ( 1580-1640). O comerciante francês do Havre. Arsène Isabelle ( 2006; p. 198)  as enumerou em 1834 como  “as sete Missões, da margem esquerda do Uruguai,  estavam assim distribuídas: São Borja, a uma légua do Uruguai e a três léguas, ao sul, do rio Camaquã; São Nicolau, na margem direita do Piratinim, a três léguas, mais ou menos, de sua confluência com o Uruguai; São Luís, São Miguel, São Lourenço e São João, entre os rios Piratinim e Ijuí, e Santo Ângelo nos ervais,4 na margem direita do Ijuí. São Miguel era a capital das Missões do Uruguai”.

04 – AS TARDIAS PROJEÇÕES ESTÉTICAS LUSITANAS COLONIAS no
RIO GRANDE do SUL
O Rio Grande do Sul como província de fronteira perigosa, de poucos interesses inicias e de colonização tardia não conheceu as manifestações estéticas da EMOÇÃO e da EUFORIA mediterrânea cultivadas nos países ibéricos. A ausência doa Maneirismo e do Barroco o distingue do Nordeste brasileiro, do Centro e de Minas Gerais que conheceram usufruíram na época e cultivaram reflexos do triunfo do Barroco lusitano metropolitano.
Fig. 13 –  O Museu de Arte Sacra da 1ª capital do Rio Grande do Sul fornece um índice de uma estétca que já se afasta das tendências barrocas e retorna para um lógica classicizante e característico das reformas pombalinas pós destruição de Lisboa pelo terremoto de 1755. O parco patrimônio do museu de Rio Grande   disposto contra paredes nuas e com cores controladas- já estão longe da EMOÇÃO e EUFORIA da Contrarreforma e do mergulho de todos os sentidos humanos em cenários propícios à Propaganda da Fé.

Nos dois primeiros séculos após aa descoberta do Brasil uma porção mínima do atual território do Rio Grande do Sul recebeu a cultura lusitana. A linha divisória entre Portugal e Espanha passava pela atual cidade Laguna, fundada em 29 de julho de 1676. Assim, a maioria das expressões e as manifestações das Artes Visuais sul-rio-grandenses do Regime Colonial, já pertencem à LÓGICA e da RAZÃO do período conhecido como ILUMINISMO e da politica dos chamados “TIRANOS ILUMINADOS”.
Fig. 14 –  O próprio prédio do Museu de Arte Sacra da cidade de Rio Grande reflete  a estética das reformas pombalinas pós destruição de Lisboa pelo terremoto de 1755.  Esta obra foi entregue  para a Irmandade de São Francisco em 1794. Este prédio faz fundo e se comunica com a catedral de Rio Grande entregue ao culto antes da Invasão espanhola e saqueada por estes, conforme a tradição local

Catedral de São Pedro de Rio Grande

Os lusitanos ocuparam lenta, silenciosa e continuamente o atual território sul-rio-grandense a partir da Unificação das duas coroas ibéricas (1580 1640). Ocupação e infiltração portuguesa que foi violentamente contestada pela coroa espanhola e que apostava nas Missões Jesuíticas para a sua efetiva e ocupação e integração ao mundo castelhano.
Fig. 15 –  O antigo palácio do Governo da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul foi uma das obras iniciadas no governo de MANUEL JORGE GOMES de SEPÚLVEDA Composto estilisticamente nas tendências classicizantes do período pombalino e cujos raros enfeite são as vergas curvas introduzidas e difundidas  pelo militar e mestre José Fernandes Pinto Alpoin (1700-1765)

Diante desta reação espanhola as atuais fronteiras físicas do Rio Grande do Sul lusitano começaram a se definir e sob a pressão da soberania brasileira. Porém o estancamento da entropia do  mundo físico e a retomada do mundo imaterial tiveram de esperar mais de um século para se efetivar e tomar conhecimento do que se havia passado no interior destas fronteiras.
Fig. 16 –  As metrópoles  coloniais estimulavam o retorno daqueles que enriqueciam nas colônias. Isto aportava recursos para as respectivas coroas e evitava os levantes autóctones. O Solar Lopo Gonçalves de Porto Alegre,  NÂO é do período colonial Contudo conserva os traços austeros desta arquitetura controlada pelas metrópoles. A parte superior a residência dos donos e a inferior, sem janelas era a senzala

05 - A RETOMADA das LEITURAS e ESTANCAMENTO da ENTROPIA.

05.1 – As soberanias nacionais e Arte 
das Missões
A retomada da leitura das expressões e as manifestações das Artes Visuais das Missões Jesuíticas foi lenta titubeante e ainda não demonstrada ao grande público.
Com a as sucessivas independências e soberanias das Nações banhadas pelo Rio da Prata e o seus afluentes e sob a estética nacionalista do Romantismo. Com a conquista desta soberania terminou oficialmente  regime colonial. Permaneceram os hábitos da heteronímia e a própria escravidão legal no Brasil imperial.
Os PRECURSORES da INDEPENDÊNCIA destas nações platinas e do BRASIL tiveram de enfrentar as privações, as lutas e os trabalhos inerentes a conquista da liberdade. Privações que iniciavam nos erários do PODER ORIGINÁRIO BRASILEIRO - que mesmo na ausência física dos antigos dominadores - tinham dívidas astronômicas a saldar com os seus novos parceiros mundiais. Dívidas que inclusive financiavam  os seus próprios inimigos desta soberania.
No ambiente erudito os próprios arquivos e os registros da Companhia de Jesus na sua ação nas MISSÕES na América do Sul e no sul-rio-grandenses ao longo do Regime Colonial tiveram de ser mantidos e fragmentados logo após a extinção oficial da Companhia. Com as soberanias nacionais se reequilibrando foi possível voltar os olhos para este passado colonial A preservação desta documentação foi lenta insegura e ainda pouco conhecida.
O movimento romântico brasileiro buscou, apos a Independência, motivos nacionais para construir o imaginário do novo Estado soberano. Neste imaginário entrou o indígena e inclusive a figura doa gaúcho sul-rio-grandense. Porém a memória das Missões Jesuíticas não mereceu a mesma atenção neste movimento de construção simbólica. Isto só aconteceu após os movimentos desencadeados na décadas e de 1920 e 1930. A memória das Missões Jesuíticas iniciou figurar como patrimônio material. Porém o patrimônio imaterial necessitou esperar para após o Estado Novo e com a força dos movimentos regionalistas.
O patrimônio material, das Missões do Rio Grande do Sul, figurou, em 1937,  na obra dos pioneiros da preservação o Patrimônio Artístico em solo nacional. Lúcio Costa conseguiu evidenciar as amostras e procurou estagnar o processo de entropia natural que significa qualquer abandono físico.
Fig. 17 –  Uma das peças escultóricas mais conhecidas e divulgadas da produção missioneiras presta tributos materiais ao elemento vegetal das madeiras das matas ciliares dos afluentes do Rio Uruguai. A sugestão do tronco a ser esculpido  para livrar esta figura do imaginário cristão  A figura era parte de um todo que não se conhece pois os vestígios dos encaixes neste todo são visíveis na peça.
A  abundância da madeira - como matéria prima da criação artística -  também apresentava problemas. Um deles é madeira tropical, carregada de variadas substância que se modificavam ao longo do ressecamento, rachavam as peças e repasto de insetos xilófagos. Uma das soluções era tronar ocas estas peças. Isto permitia o ressecamento sem rachaduras, o seu transporte fácil e seu uso cênico.

Nas mais variadas formas dos movimentos de construção simbólica cabe uma amostra da pesquisa de Athos  Damasceno. Este  escreveu (1971,  pp. 13-15) [1]  em relação a um dos artistas visuais ativos nas Missões jesuíticas:
“José Brasanelli nasceu em Milão a 06 de janeiro de 1659 e faleceu a 17 de agosto de 1728, aos sessenta e nove anos, no Povo de Candelária, tal como João Batista Primoli. Antes de ingressar na Companhia de Jesus, tendo estudado com os melhores e mais afamados arquitetos e escultores romanos, já se tornara conhecido e reputado. Em 1696, com a idade de trinta e sete anos, portanto, encontra-se no Povo de São Borja, cujas construções ele projeta, orienta e administra, ali revelando extraordinária capacidade de trabalho.’ O incomparável Ir. Brasanelli – escreve Aurélio Porto em sua História das Missões Orientais – se desdobra em todos os setores de sua arte, construindo o templo, erguendo o Povo pelo risco que traçara, abrindo em talha os magníficos altares e adornando-os de estátuas formosíssimas, pois era notável escultor, e transmitindo a sua arte a índios que mais tarde se notabilizaram’.  Brasanelli serviu a diversas reduções. Mas principalmente ao núcleo missioneiro a que aludiu Aurélio Porto, ou seja, a de São Borja, Brasanelli daria o melhor de seus esforços fazendo-se admirara tanto quanto é certo que, nas árduas e complexas empreitadas a que se devotou, duas circunstâncias poderosas ser-lhe-iam francamente adversas – A escassez e mesmo a falta de muitos materiais indispensáveis à obra e a já conhecida incapacidade dos nativos para qualquer tipo de atividade continuada. A despeito de todos os obstáculos, Brasanelli cumpriu exemplarmente a tarefa que lhe foi confiada. E no desempenho dela se empregou fundo, levando a bom termo uma obra de porte notável. [..] Mas há de ser, sobretudo, na edificação e ornamentação da igreja que o artista se imporá, revelando de modo cabal, nos menores detalhes da obra, suas qualidades singulares. [..] A obra é digna de maior apreço, quer em seus aspectos arquitetônicos, quer no que toca a peças de talha e escultura que a decoram e enriquecem e das quais ainda existem exemplares  de indiscutível valor artístico, como, além  das estátuas, alguns retábulos, uma pia batismal trabalhada em pedra e medindo cerca de um metro e meio de altura e diversas imagens de santos. De um grande quadro a óleo, pintado por Brasanelli, figurando o padroeiro da Redução, bem como dos painéis da cúpula da igreja, há apenas notícias”
Na medida em que avançam as integrações, técnicas, políticas e especialmente as econômicas do MERCOSUL, o patrimônio material  e imaterial das Missões das Missões jesuíticas constituem uma ponte e um elo comum na preservação do Patrimônio Artístico.

Porém também é necessário perceber as competências das contribuições lusitanas, brasileiras e regionais sul-rio-grandenses podem significar nos amplos limites deste contexto de um projeto civilizatório.



[1] DAMASCENO. Athos. Artes plásticas no Rio Grande do Sul (1755-1900). Porto Alegre : Globo, 1971, 520 p
Fig. 18 – A remessa para a museificação do Patrimônio material humano  e a sua transformação em recurso turístico é decorrente da lógica da  Era Industrial que percebe possibilidades econômicas do lazer e do ócio que as máquinas permitem ao ser humano. Esta tendência constitui uma potencial fonte de rendas econômicas, cultuais e sociais. Tendência que  ganhou o reforço e a legitimidade mundial da UNESCO RESENHA TURÌSTICA das MISSÔES. Porém acima destes valores sociais culturais e econômicos está o projeto civilizatpírio empreendido pelo PODE ORIGINÀRIO, orientado pelo Estado e que subsidiariamente colhe as raízes d a identidade de uma nação e que diz ser o legitimo representante.

Roteiro turístico das Missões em:  http://confins.revues.org/8501

05.2 – A Era Industrial e a Arte das Missões.

A transformação dos vestígios no RIO GRANDE do SUL da CONTRARREFORMA, MANEIRISMO e BARROCO ganhou um suporte econômico por meio do turismo. Este trabalho  que ganhou impulso e visibilidade ao longo do Estado Novo Brasileiro (1937-1945)  que notou nas Ruínas da Missões Jesuíticas  um ponto de identidade nacional. O regime governamental também não tardou em perceber um valor simbólico de um potencial PROJETO CIVILIZATÓRIO COMPENSADOR da VIOLÊNCIA que este Estado Novo praticava. Violência que o Estado Novo praticava contra outras etnias e culturas com as quais entrou em confronto repressivo aberto. Neste sentido civilizatório este projeto nacionalista unitário foi adequado e regionalizado após o Estado Novo a partir de 1947. Regionalismo alimentado pelos movimentos missioneiros que também emergiram do interior dos Centros de Tradições Gaúchos. Estes cultivavam um espaço generoso para a estética que expressava a EMOÇÃO e a EUFORIA mediterrânea herdada dos países ibéricos. As fronteiras dos países limítrofes  platinos não foram obstáculos maiores  para figura do gaúcho e cultivo dos seus hábitos e a sua economia.
Porém toda escolha é uma perda, no mínimo. Em relação à Artes Visuais, especialmente para as obras de escultura, por mais intenso fosse a recuperação de uma obra isolada de escultura , e talvez por isto mesmo, ela perde o seu sentido essencial de SER UMA PEÇA se um CENÁRIO. Na sua criação original ela não era concebida e realizada para ser percebida,  admirada e estudada como uma peça separada. Peça em condições de suportar o seu sentido fora do lugar, da proporção e da função para qual ela havia sido concebida, elaborada e instalada. No contraponto, na medida em que esta obra de escultura, atinge o estatuto de uma obra de arte ela é competente para sugerir, ou mesmo exigir, o ambiente, a mentalidade e a época na qual ela foi concebida,  elaborada e colocada.
Exposição de obras missioneiras no Museu de Arte do Rio Grande do Sul em setembro de 200 com itinirância por outras capitais do MERCOSUL
Fig. 19 –  A interação de um publico de interesses grau de instrução e recurso econômicos  heterogêneos e que ambiente museológico  vincula a uma OBRA de ARTE  pelos recursos dos CINCO SENTIDOS HUMANOS é um projeto em plena expansão na ERA PÓSINDUSTRIAL. A PROPAGANDA da FÈ é substituída pela PROPAGANDA, PEBLICIDADE e EVENTOS

05.3 – A Era Pós- Industrial e 
a Arte das Missões

Nas ruínas das Missões é possível vislumbrar a antecipação da ideia da franquia, em cima de um produto testado e  o deslocamento de sua produção para a periferia dos centros de decisão.
O projeto PROPAGANDA da FÉ - moldado conceitualmente CONTRARREFORMA - foi laicizado,  nos dais atuais e ganhou impulso na cultura contemporânea pós-industrial, Os seus templos atuais são os centros comerciais e que respondem pelos mesmos princípios e pela mesma logística e estratégias  da Propaganda. Os centros comerciais encerram os seus clientes estrategicamente em ambientes sem janelas para o mundo exterior. A parafernália logística não deixa imune nenhum dos CINCO SENTIDOS HUMANOS do bombardeio, sem misericórdia, da Propaganda. Fazem respirar o ar condicionado e bombardeiam. Bombardeio que lida com o princípio e a munição conceitual provocado pelo conflito da CULPA (pecado) e do PERDÂO (redenção). Perdão concedido generosamente no momento em que o cliente adquire os produtos da PROPAGANDA.
Fig. 20 –  A  metáfora do arcanjo fiel (Miguel)  enfrentando os arcanjos rebeldes, liderados pelo Portador das Luzes (Lúcifer)  motivou e  produziu nas Missões Jesuíticas uma elucidativa escultura. O patrono da principal centro e da capital das sete Reduções das Missões Jesuíticas  As formas soltas e policromada desta escultura em madeira é coerente com as tendências barrocas enquanto não deixa inderente as EMOÇÔES diante da luta do BEM e do MAL e que o jesuítas conduzia na sua interação com público indígena. Porém o ambiente museológico possibilita expandir esta interação sensorial para  um publico de interesses grau de instrução e de recursos econômicos  heterogêneos.  A ERA PÓS-INDUSTRIAL permite a plena expansão da vinculação e releitura de uma OBRA de ARTE do passado especialmente ao recorrer  aos estímulos dos  CINCO SENTIDOS HUMANOS como Cildo Meireles (fig. 22) e Vik Muniz já provaram em várias instalações plástico-visual.

VIK MUNIZ e CARAVÀGIO
.
05.4 – As ruínas das Missões e a 
        Época das Incertezas.

As Missões Jesuíticas do Rio Grande do Sul podem ser interpretadas como um experimento inaugural da Era Industrial. Nas Missões estão presentes as crenças do estágio da cultural material humana que se confiou na linha de montagem, na padronização universal e num sistema regulado por um saber superior e externo. Estágio que se traduziu em normativas, procedimentos sistêmicos e sentimentos adotados como padrão de eficácia material e simbólica. A ruína das Missões como da Era Industrial escancararam um mundo de incertezas. Incertezas nas quais se debate a Era Pós Industrial.
Fig. 21 –  Uma obras de Plínio Bernhardt realizada em 2001 resgata a memória do próprio artista ao se defrontar em 1947 com as Missões Jesuíticas. Numa tela quadrada ( 8o x 80 cm) e pintada com tinta acrílica o arista evoca a forte atmosfera mística qu orientou a materialização deste projeto humano   policromada interação de um

As ruínas desta experiência são testemunhas mudas e que anteciparam a visão das ruínas atuais da era industrial e da informática. Ruínas que mostram, com toda crueza,  a obsolescência cada vez mais acelerada, do mundo da linha de montagem, da fábrica e da Era Pós-Industrial. Ruínas que prefiguram a entropia a que estão sujeitos os apelos aos sentidos humanos dos recursos mediáticos agora reforçados e possíveis com a eletrônica. Meios que transfiguram lugares, com um estacionamento provisório, em cenários virtuais nos quais ocorrem eventos. Eventos não deixam nada atrás de si mais do que ruínas e memórias nebulosas e de múltiplas leituras.
Contemplando o cenário contemporâneo não existe nada tão atual e eficiente do que a conexão entre as obras de arte e os sentidos humanos do que as Missões Jesuíticas foram uma amostra acabada desta conexão. O novo  cultivo da EMOÇÃO explicita e imediata, proveniente dos sentidos humanos, deixou de lado, nos dias atuais, a primazia da RAZÃO e comanda novamente a nossa civilização ocidental. Os seus templos contemporâneos são os ‘shopping centers’, estádios esportivos e lugares de celebrações coletivas.
As ruínas no RIO GRANDE do SUL da CONTRARREFORMA, do MANEIRISMO e do BARROCO são testemunhas mudas para os dias atuais. Testemunhas cuja experiência  e abandono anteciparam a visão das atuais ruínas e o abandono da era industrial e da era da informática cercada de imensas dúvidas.  Conceitualmente as atuais projeções da CONTRARREFORMA, do MANEIRISMO e do BARROCO são coerentes com Era Pós-Industrial que se tornou uma época as profundas dúvidas e incertezas. Estas dúvidas e incertezas alimentam cultura, uma economia e uma sociedade virtual. A identificação do código genético humano, os conhecimentos fluindo sem fronteiras nos satélites e descoberta incessante de novas fontes energéticas incorporaram as mais diversas informações aos “motores” da informática. Entre estes os campos da comunicação, da propagando, do marketing e da economia, proveniente da indústria cultural, conhecem este caminho que constrói e reconstrói incessantemente o mundo empírico da percepção humana.
Espera-se que este imenso acervo de informações seja incorporado ao presente e se decante em nova civilização. Acervo que evite os erros do passado, possa fornecer energias imateriais e as  forças simbólicas de um projeto civilizatório competente para administrar o mundo material do aqui e do agora.

FONTES BIBLIOGRÀFICAS
ISABELLE, Arsène(1807-1888) Viagem ao Rio da Prata e ao Rio Grande do Sul ; tradução e nota sobre o autor Teodemiro Tostes ; introdução de Augusto Meyer. -- Brasília: Senados Federal, Conselho Editorial, 2006. XXXII+314 p. -- (Edições do Senado Federal ; v. 61)

MOREIRA , Altamir A Morte e o Além . Porto Alegre : programa de Doutoramento em Artes Visuais- Instituto de Artes – UFRGS março de 2006 –  alt2mir@yahoo,com.br      http://althamir.googlepages.com/artes

HAUSER, Arnold (1892-1988) Maneirismo: a crise da renascença e surgimento da modernidade (2ª ed,) São Paulo: Perspectiva, 1993 463 p. il.

SPINELLI, Teniza, Escultura Missioneira em Museus do Rio Grande do Sul.    ; Alf , 2008, 103 p.

TREVISAN, Armindo Escultura Missioneira. Porto Alegre : Movimento, 1978, 112p

Fig. 22 –  Uma das instalações da arte brasileira contemporânea foi buscar sua motivação nas dúvidas e incertezas das Missões Jesuíticas. Esta instalação originalmente criada numa visita á Missões foi montada na metade da década de 1980 na UFRGS. Composta de uma piscina de moedas, e um céu de ossos descarnados que são conectados por uma coluna vertical de hóstias   Após esta mesma instalação percorreu e foi remontada em vários países e culturas. Na presente imagem é mostrada no site de educação norte-americana.

FONTES NUMÉRICAS DIGITAIS

ARQUITETURA em PORTUGAL
ARQUITETURA POMBALINA

COLÔNIA do SACRAMENTO FUNDADA em 22.01.1680

CONTRARREFORMA e  PROPAGANDA da FÈ 

CRONOLOGIA da MISSÕES JESUÍTICAS do RS


ESCULTURA no BRASIL e ESCULTURA MISSIONEIRA

FRANCISCO BORJA (1510-1572) Duque de Cândia

GUERRA GUARANÍTICA

IDENTIDADE MISIONEIRA

INÁCIO de LOYOLA – Iñigo López (1491-1556)

MARGS  e ARTE MISSIONEIRA

MUSEU da ARTE SACRA da PREFEITURA da CIDADE de RUO GRANDE

MUSEU de ARTE SACRA de RIO PARDO

MUSEU de ARTE de São MIGUEL das MISSÔES
Cruz da igreja e São Miguel

OFICINA MISSIONEIRA e IMAGENS

ORDENAÇÕES FILIPINAS

MUSEU JÚLIO de CASTILHOS e ARTE MISSIONEIRA

REINO de DOM JOSÈ I

ROTEIRO das MISSÔES
RESENHA TURÌSTICA do ROTEIRO das MISSÕES JESUÍTICAS

RUINAS

TRATADO de MADRID  13.01.1750

 


SÉRIE de  POSTAGENS ARTE no RIO GRANDE do SUL

[esta série desenvolve o tema “ARTE no RIO GRANDE do SUL” disponível em http://www.ciriosimon.pro.br/his/his.html  ]
123 – ARTE no RIO GRANDE do SUL - 01
GUARDIÕES das  SEMENTES das ARTES VISUAIS do RIO GRANDE do SUL

124 – ARTE no RIO GRANDE do SUL - 02
DIACRONIA e SINCRONIA das ARTES VISUAIS do RIO GRANDE do SUL nos seus ESTÁGIOS PRODUTIVOS.

PRIMEIRA PARTE
125 – ARTE no RIO GRANDE do SUL - 03
Artes visuais indígenas sul-rio-grandenses

126 – ARTE no RIO GRANDE do SUL - 04
O projeto civilizatório jesuítico e a Contrarreforma no Rio Grande do Sul

127 – ARTE no RIO GRANDE do SUL – 05
Artes visuais afro--sul-rio-grandenses

128 – ARTE no RIO GRANDE do SUL – 06
O projeto iluminista contrapõe-se ao projeto da Contrarreforma no Rio Grande do Sul.

129 – ARTE no RIO GRANDE do SUL – 07
A província sul-rio-grandense  diante do projeto imperial brasileiro

130 – ARTE no RIO GRANDE do SUL - 08
A arte no Rio Grande do Sul diante de projeto republicano

131 – ARTE no RIO GRANDE do SUL - 09
Dos primórdios do ILBA-RS e  a sua Escola de Artes até a Revolução de  1930

132 – ARTE no RIO GRANDE do SUL - 10
A ARTE no RIO GRANDE do SUL  entre 1930 e 1945

133 – ARTE no RIO GRANDE do SUL - 11
O  projeto da democratização da arte após 1945.

134  – ARTE no RIO GRANDE do SUL - 12
A ARTE e a ARQUITETURA em AUTONOMIA no RIO GRANDE do SUL

135  – ARTE no RIO GRANDE do SUL - 13
A ARTE no RIO GRANDE do SUL entre 1970 e 2000

SEGUNDA  PARTE

Iconografia e Iconologia das artes  visuais de diferentes projetos políticos do Rio Grande do Sul.

136– ARTE no RIO GRANDE do SUL - 13
As obras das artes visuais indígena do atual território do o Rio Grande do Sul.

137 – ARTE no RIO GRANDE do SUL - 14
Obras das artes visuais afro-sul-rio-grandense

138 – ARTE no RIO GRANDE do SUL - 15
Obras de arte dos Sete Povos das Missões Jesuíticas como metáfora da Contrarreforma

139 – ARTE no RIO GRANDE do SUL - 16
A “casa do cachorro-sentado” como índice açoriano no meio  cultural do Rio Grande do Sul .

140 – ARTE no RIO GRANDE do SUL - 17
Obras de Manuel Araújo Porto-alegre

141 – ARTE no RIO GRANDE do SUL - 18
Obras de Pedro Weingärtner

142 – ARTE no RIO GRANDE do SUL - 19
Obras de Libindo Ferrás

143 – ARTE no RIO GRANDE do SUL - 20
Obras de Francis Pelichek

144 – ARTE no RIO GRANDE do SUL - 21
Obras de Fernando Corona

145 – ARTE no RIO GRANDE do SUL - 22
Obras de Ado Malagoli

146 – ARTE no RIO GRANDE do SUL - 23
Obras de Iberê Camargo
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Referências para Círio SIMON






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