domingo, 4 de maio de 2014

086 - ISTO é ARTE

 PORTO ALEGRE 

esqueceu-se do pai.

"O brasileiro fala muito,

documenta pouco,

analisa menos e

conclui definitivamente,

a sua moda, na hora que interessa.”

Paixão Cortes ( 1984 p.7)

A sentença do folclorista pode-se aplicar à memória daquele que Porto Alegre convencionou chamar como seu fundador.  Memória que deixou passar em brancas nuvens os 200 anos da sua morte em 28 de abril de 1814.


Fig.01 – O português MANUEL JORGE GOMES de SEPÚLVEDA (*16.04.1735 +28.04.1814) foi duas vezes governador do Rio Grande do Sul. Em Porto Alegre era conhecido sob o heterônimo de JOSÉ MARCELINO FIGUEIREDO.

A cidade de Porto Alegre ainda é adolescente diante das multisseculares cidades espalhadas em todos os quadrantes do planeta. Esta pré-adolescência necessita libertar-se da memória dos seus progenitores num complexo de Édipo. Certamente Porto Alegre não é “filha da roda da Santa Casa”. A Santa Casa ainda não existia e muito menos a roda dos expostos.


Fig.02 – A colônia lusitana  financiou um obelisco a JOSÉ MARCELINO FIGUEIREDO (SEPÚLVEDA)  e inaugurado em 24 de setembro de 1935 no âmbito dos diversos eventos comemorativos do Centenário a revolução Farroupilha.  A cidade de Porto Alegre  denominou uma avenida monumental que leva o seu nome abreviado.

Assim ela teve dúvidas de quem era o seu pai. Andou em naturais certezas quando se apresentou o tropeiro Jerônimo do Ornelas. Mas zelosos cartorialistas apresentaram documentos inequívocos de sua origem e o pai declarado dos seus dias históricos. É o intrépido militar luso MANUEL JORGE GOMES de SEPÚLVEDA (*16.04.1735 +28.04.1814) duas vezes governador do Rio Grande do Sul conhecido e agindo em Porto Alegre sob o heterônimo de JOSÉ MARCELINO FIGUEIREDO.


Fig.03 – A vida na fronteira exigia tratados bem argumentos e a sua sustentação no espaço físico diante de estado de guerra permanente. No aglomerado urbano de Porto Alegre de Dom Sepúlveda não dá para descartar paliçadas defensivas e a redução do acesso pela denominada Praça do Portão.  Este Portão - se existiu fisicamente ao lado da guarnição militar - dá sentido às duas prisões dos representantes do poder legislativo que ele determinou para impedir a sua volta para  Viamão onde moravam.  A vida social era constantemente perturbada e abafada pelos gritos de “inimigos à vista” e de alarmes de guerra real ou imaginada.

            Porém não se ouviu a menor menção a este propalado pai de Porto Alegre no momento em que se completam 200 anos da sua ausência física definitiva deste planeta

Fig.04 – A pequena aglomeração urbana de Porto Alegre do tempo de JOSÉ MARCELINO FIGUEIREDO não ficava distante da Lagoa dos Partos em grande parte controlada pelos castelhanos entre 1763 e 1776. A qualquer momento eles poderiam irromper e atacar a nova capital. Não há noticia sobre muralha nesta época. Mas não dá para descartar paliçadas defensivas e a redução do acesso pela denominada Praça do Portão. A muralha de Porto Alegre ganhará um corpo mais denso, entre 1835 e 1845, ao longo do cerco dos farroupilhas as imperiais.

O burburinho, as urgências vazias e os gritos agudos das máquinas de comunicação abafam a origem, a cultura e os valores de Porto Alegre. Máquinas de comunicação, pautadas por interesses estranhos provenientes de culturas e de terras com outras origens e outros valores.


Fig.05 – A cidade amuralhada portuguesa de Trancoso situa-se sobre uma colina da se assemelha geograficamente  com Porto Alegre governada por JOSÉ MARCELINO FIGUEIREDO. Com o seu verdadeiro nome de batismo  MANUEL JORGE GOMES de SEPÚLVEDA foi Alcaide Mor da Trancoso.  

 Não que faltassem registros da origem, da cultura e os valores de Dom Marcelino Figueiredo ou Manoel Jorge Gomes Sepúlveda, de sua passagem e feitos em Porto Alegre. O seu desaparecimento inclusive foi registrado em tempo num dos poucos jornais que circulava há dois séculos. Este necrológio - neste raro jornal desta época impresso em português - consta com todas as letras.


Fig.06 – Vista interna do  portão da cidade amuralhada de Trancoso da qual  MANUEL JORGE GOMES de SEPÚLVEDA foi alcaide mor. Em Porto Alegre este mesmo, com o nome de  JOSÉ MARCELINO FIGUEIREDO, criou um equipamento urbano que se manteve e se ampliou, na linguagem popular, com a designação de PRAÇA do PORTÃO.

 Assim é possível ler no Correio Braziliense nº 72 maio de 1814 Miscellanea.p. 747 .

“O Illustrissimo e Excellentissimo Manoel Jorge Gomes Sepulveda, do Conselho de S. A. R., Alcaide Môr de Trancoso, e Commendador de S Martinho de Serveira na Ordem de Christo, Tenente-general dos Reaes Exércitos, Conselheiro de Guerra, e Gram Cruz da Ordem da Torre e Espada, falleceo, com todos os Sacramentos, a 18 do de Abril, tendo de idade 79 annos e um dia. O seu Corpo foi sepultado com o mais decente apparato, e com as honras militares, em S. Francisco da Cidade. Sua memória será sempre saudosa á Pátria, e grata aos Soberanos, pelo fundo honrado de virtudes moraes, e civis, que constituirão sempre o seu caracter; e pelos muitos, e relevantes serviços militares, que na contínua carreira de sessenta annos, acreditarão o seu nome, na Europa, e na America, tanto na paz, como na guerra ; e ultimamente na feliz época da nossa restauração, pozéram o ultimo remate á sua gloria, e distinguíraô singularmente o seu patriotismo”.


Fig.07 – O mapa de 1780 do Rio Grande do Sul ao  tempo  do governador JOSÉ MARCELINO FIGUEIREDO. O Continente se resumia aos territórios dos afluentes que desaguavam no Guaíba e nas lagoas costeiras.  Porto Alegre consta minúscula neste mapa  sob o nome de Viamão. As manchas escuras eram as terras castelhanas e aquelas que eles ocuparam pelas armas entre 1763 e 1776. As manchas mais claras assinalam o que os tratados europeus definiam com CAMPOS NEUTRAIS e os limites entre as potencias ibéricas.  A conquista efetiva até os limites com  Rio Uruguai  - e a ocupação efetiva dos territórios as Missões jesuíticas - só se consumaram em 1810 quando, no dia 11 de dezembro deste ano, Porto Alegre foi erigida oficialmente em vila.

Pensar, falar e escrever em relação ao fundador de Porto Alegre é verificar que este fundador encarnou diversos papeis, heteronômicos e ações antagônicas, Existe o Dom Sepúlveda que mata o oficial britânico em duelo. Existe o Dom Sepúlveda invisível sob o nome de Marcelino Figueiredo. Existe o Dom Sepúlveda da política iluminada do Marquês do Pombal.


Fig.08 – Porto Alegre consta discretamente neste mapa de 1780 ao tempo JOSÉ MARCELINO FIGUEIREDO ou MANUEL JORGE GOMES de SEPÚLVEDA  como governador do Rio Grande do Sul entre 1769 até 1780. No princípio do seu governo ele estava sem comunicação direta com o "mar-oceano" devido à ocupação de Rio Grande, a partir 12. 05.1763,  pelos castelhanos comandados por Dom Pedro Zeballos. Foi quando a Capital foi transferida para Viamão. Dom Sepúlveda a capital transferiu, em 1773, para Porto Alegre. Reconquistou São José do Norte para Portugal em 06.06.1776. Graças a um tratado ibérico ele retomou definitivamente a cidade de Rio Grande.

 Neste período em que enfrenta as consequência da ocupação espanhola do Rio Grande e a retirada estratégica para Viamão. Existe o Dom Sepúlveda do lance temerário da mudança onde ele manda prender o seu poder legislativo local e o chantageia a assinar a ata da mudança da capital para Porto Alegre. Existe o Dom Sepúlveda da Viradeira de Dona Maria I que manda destruir a indústria na Colônia do Brasil. Existe o Dom Sepúlveda idoso surpreendido com a invasão francesas de Portugal e a permanente ameaça do seu retorno apoiado pelos seus simpatizantes.


Fig.09 – O terreno sobre o qual se assenta a monumental  Avenida SEPÚLVEDA foi conquistada ao rio. Era a primeira vista de Porto Alegre de quem chegava via fluvial à capital do Estado. Era uma sala de visita digna  de Porto Alegre. O seu prolongamento aponta em direção ao obelisco de Júlio de Castilhos  da Praça a Matriz e ao centro cívico de Porto Alegre.

Estes esquecimentos do múltiplo Manoel Jorge Gomes Sepúlveda, do Conselho de Sua Alteza Real, Alcaide Mor. de Trancoso, e Comendador de S Martinho de Serveira na Ordem de Cristo, Tenente-general dos Reais Exércitos, Conselheiro de Guerra, e Gram Cruz da Ordem da Torre e Espada podem ocorrer no tumulto da pós-modernidade e ser justificada devido as atuais incinerações de quem se despede da vida. No entanto todos estes esquecimentos do pai de Porto Alegre comprometem “a honra, e a dignidade, não porque isso seja um bem real, mas porque produz efeitos reais e importantes na prosperidade, conforto, e existência dos homens” . (Correio Braziliense nº 72 maio de 1814 Miscellanea.p.755)


Fig.10 – A inscrição afirmando que JOSÉ MARCELINO FIGUEIREDO como fundador de Porto Alegre certamente é um erro em bronze.  Erro que gera um mito que escamoteia o verdadeiro sentido e valor do português MANUEL JORGE GOMES de SEPÚLVEDA duas vezes governador do Rio Grande do Sul refugiado sob o seu  heterônimo.

O conhecimento das suas origens permite ao ser humano escapar do mito da sua origem miraculosa como também descarta a aceitação de se deixar tratar como coisa confundida com a Natureza e reificada.

Uma cidade - na adolescência como Porto Alegre e em pleno processo da afirmação diante do mundo - credita-se mais este esquecimento ao complexo de Édipo que necessita matar ou ignorar o pai e se apropriar da mãe. O múltiplo Manoel Jorge Gomes Sepúlveda, do Conselho de Sua Alteza Real, Alcaide Mor de Trancoso, e Comendador de S. Martinho de Serveira na Ordem de Cristo, Tenente-general dos Reais Exércitos, Conselheiro de Guerra, e Gram Cruz da Ordem da Torre e Espada certamente está muito acima destas circunstâncias e saberá esperar hora mais propícia. Esta hora chegará com a razão e plena posse das suas competências no interior de seus naturais limites.


Fig.11 – Os esforçados escoteiros sul-rio-grandenses certamente podem associar o seu fundador o britânico Baden-Powell of GILWEL (1857-1941) com o português MANUEL JORGE GOMES de SEPÚLVEDA o  JOSÉ MARCELINO FIGUEIREDO local. Ambos foram desbravadores, militares e líderes que souberam se colocar no seu tempo e lugar e transformar as suas existências em lideranças naturais. O erro em bronze colocaria Dom Sepúlveda numa situação curiosa e fora dos FUNDADORES de PORTO ALEGRE,  pois em 1740 ele tinha apenas cinco anos.

Muita pesquisa atenta para não perpetrar erros em bronze e muito menos promover custosos eventos coletivos equivocados como o de1940. Para a presente postagem também vale o puxão de orelha do João Carlos Paixão Cortes (1984 p.7)"o brasileiro fala muito, documenta pouco, analisa menos e conclui definitivamente, a sua moda, na hora que interessa.” Entre tantos balões furados da presente postagem foi o de seguir a onda e atribuir a paternidade e fundação de Porto Alegre a Dom Sepúlveda. Acertadamente José Francisco ALVES de Almeida avisa e corrigePorto Alegre não teve ‘fundador’ ou outros fundadores”, (2004, p.168).

Fig.12 –  A Avenida SEPÚLVEDA aponta para o rio para quem vem do obelisco de Júlio de Castilhos,  da Praça a Matriz e do centro cívico de Porto Alegre. A monumental estrutura em ferro e vidro constitui um vestíbulo da sala de visita digna da cidade de Porto Alegre que MANUEL JORGE GOMES de SEPÚLVEDA ou  JOSÉ MARCELINO FIGUEIREDO queria como capital do Rio Grande do Sul
Porém não é ocasional que o periódico dirigido por Hipólito Jose da Costa dedica-se um espaço ao intrépido Dom  Sepúlveda. Dois homens ligados ao extremo meridional do Brasil e às suas circunstâncias da sua época de dúvidas, tensões e de audaciosas definições conferiam as raízes para múltiplos caminhos.

           Sem a ação decisiva de Dom Marcelino talvez a capital voltasse para o porto de Rio Grande, como foi de 1737 a 1763 Permaneceria definitivamente em Viamão, como foi em 1763 até 1772. Ou então iria para Rio Pardo onde Pinto Bandeira e Dom Marcelino colocaram definitivamente uma Tranqueira Invicta para as pretensões castelhanas.

          As duas vezes que ele mandou prender o seu poder legislativo dizem de sua determinação, audácia e temeridade em colocar um ponto final neste trânsito das capitais e escolher o ponto geográfico estratégico no qual está ainda em maio de 2014

Fig.13 – A lacônica e enferrujada placa que deveria identificar  MANUEL JORGE GOMES de SEPÚLVEDA  - duas vezes governador do Rio Grande do Sul conhecido em Porto Alegre como JOSÉ MARCELINO FIGUEIREDO - certamente não presta este serviço à população local e muito menos para um estrangeiro na busca da identidade, personagens e história local.. Um desafio de transformar os dois termos AVENIDA SEPÙLVEDA em título de um tema de vestibular colocaria muito estudante esforçado e inteligente em sério risco de não aprovação.

Em relação às comunicações que tem por tema a figura de MANUEL JORGE GOMES de SEPÚLVEDA não é possível percebê-las e coloca-las no mundo dos mitos sublimes fundantes.. No polo oposto não é possível deixar que a memória desta figura deslize silenciosamente para o mundo natural. O caminho natural destinado ao entulho das inutilidades e arbítrios parece ser indicado por uma placa enferrujada e lacônica. O caminho da mitificação e da  comunicação imponderável é indicado por um obelisco ao modo egípcio. Tanto a placa como o obelisco induzem ao esquecimento da pessoa que migrou da vida para a História no dia  28 de abril de 1814 e a quem Porto Alegre deve de fato e de direito tanto o impulso inicial do seu protagonismo, como de sua identidade bem como dos seus bens materiais e imateriais.


FONTES BIBLIOGRÁFICAS



ALVES de Almeida, José Francisco (1964).  A Escultura pública de Porto Alegre – História, contexto e significado – Porto Alegre: Artfólio, 2004  246 p.



PAIXÃO CORTES, João Carlos. Aspectos da música e fonografias gaúchas. Porto Alegre: Repressom   1984     117p.



FONTES  NUMÉRICAS DIGITAIS



A CIDADE AÇORIANA




DOM SEPÚLVEDA de Manuel Jorge Gomes de Sepúlveda




DADOS BIOGRÁFICOS relativos a Manuel Jorge Gomes de Sepúlveda






CASTELO de TRANCOSO


ALCAIDE




IMAGEM DOM SEPÚLVEDA



GENEALOGIA de Manuel Jorge Gomes de Sepúlveda



BERNARDO CORREA DE CASTRO SEPULVEDA 1791-1833  -Filho


http://purl.pt/11777

http://purl.pt/11777/3/



GOVERNADORES do RIO GRANDE do SUL - lista




FALSO BICENTENÁRIO de PORTO AEGRE de 1940


CORREIO BRAZILENSE maio 1814 Manuel Jorge Gomes de Sepúlveda p.747




A RODA dos EXPOSTOS de PORTO ALEGRE e LUCIANA de ABREU



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Um comentário:

  1. Círio, parabéns pela lembrança e pelo texto.
    Nelson Rosa

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