quarta-feira, 25 de junho de 2014

88 – ISTO é ARTE

KARL FERDINAND SCHLATTER.

"Das Nachwuchs der Germania, vergesst der alten heimat nicht, der Neuen, stets, tut eure Pflicht !."

“Aos descendentes dos imigrantes dizemos: a velha pátria sempre lembrai. 
 À nova, no entanto, sempre vossa lealdade dedicai !.”
          SCHLATTER, in Messele-Wieser, 2013, p. 115
Detalhe foto  in MESSELE-WIESER, 2013, p.44
. Fig 01 – A imagem de Ferdinand Schlatter mostra as suas mãos pequenas de quem não recusava nenhum trabalho inclusive de abrir clareiras na floresta tropical para plantar e colher. A mesma força braçal e manual foi colocada ao serviço da técnica e da arte.

O diferente, o novo e o inesperado conseguem grandes feitos no espaço das forças genéticas. O mesmo pode ser dito nas forças culturais. A circulação e a recepção do diferente, do novo e do inesperado foi apanágio das grandes civilizações. Elas conferiam um status singular ao estrangeiro e ao imigrante. O fechamento de uma cultura opera no sentido contrário. Fechamento que amesquinha, cai na mesmice ou mesmo produz aleijões culturais. Deformidade cultural congênita ocorre na política dominada por interesse de grupos hegemônicos em especial quando dominam o aparelho governamental. O caso do Brasil Colônia é exemplar neste fechamento cultural. Com este instrumento hermético o Brasil Colônia pode prolongar a escravidão e a hegemonia de uma ideologia absurda e monstruosa por tempo indeterminado
Foto do AUTOR em 06. 2009 – SOGIPA.
. Fig 02 – As formas seguras as tintas de uma obra de Ferdinand Schlatter mostra a sua técnica. A obra da Casa dos Bávaros da SOGIPA é testemunha de 90 anos de exposição às severas intempéries externas características do clima de Porto Alegre oscilando entre a Amazônia e a Patagônia. Certamente poucas obras que possuem esta idade em Porto Alegre podem contar esta história e ser testemunho da competência técnica do seu criador.

A cultura brasileira deve à Sandra MESSELE-WIESER  uma  narrativa inteligente de como um capítulo da cultura europeia, do século XIX foi transposta ao Novo Mundo. Capítulo da cultura europeia  assimilada apressadamente e esquecida naturalmente numa ambiente impregnado de colonialismo e servidão


In MESSELE-WIESER, 2013, p.33
. Fig 03 – O lugar onde Ferdinand Schlatter começou a conquistar, com as suas próprias mãos, o seu espaço no Novo Mundo. Abriu uma clareira na floresta tropical para plantar e colher. Neste lugar viveu e trabalhou entre 1899 e 1901. Portanto é neste lugar que ele e a sua família viram chegar o século XX

 Memória esquecida, não só no Brasil, mas também no Rio Grande do Sul e especialmente em Porto Alegre. Esquecido ou ignorada mesmo por aqueles que usam a Biblioteca Pública, o Prédio da Prefeitura de Porto Alegre, o Hospital Moinhos de Vento ou a SOGIPA. Isto sem contar com igrejas e casas da capital e do interior, decoradas pelo pincel, iniciadas e mantidas por Karl Ferdinand  SCHLATTER (*07.07.1870  +07.09.1949)
Foto do AUTOR em 06. 2009 – SOGIPA.
. Fig 04 – Numa imagem autobiográfica Ferdinand Schlatter conta em julho de 1924 numa das paredes da Casa dos Bávaros na SOGIPA em Porto Alegre – numa casa erguida numa clareira na floresta tropical em Ijuí . O chope bávaro foi substituído pelo chimarrão. A força braçal e manual precisa dar conta do abismo que separava a Natureza tropical aquela de sua origem europeia. Sem escravos ou empregados toda a lida caia sobre ele e a sua família à beira da floresta.

Na sua narrativa Sandra MESSELE-WIESER registra os documentos que ela localizou no Rio Grande do Sul, Montevideo e na cidade ilha de Lindau, no lago Constança  onde nasceu o artista dos dois mundos, além do colono e do promotor social e cultural.  
Moreira, 2006 – in anexos.
. Fig 05 – Ferdinand Schlatter, de rigorosa formação luterana, se integrou e dominava todo o processo e tradição iconográfica católica. Esta sua competência ele evidenciou em numerosas igrejas católica no Rio Grande do Sul. Em Bom Princípio ele além deste conhecimento acrescenta duas paisagens locais  Num dos extremos ele mostra a igreja na qual se encontra o templo e no outro a residência de um dos fabriqueiros que encomendou a obra

Ele era formado na severa disciplina dos mestres e dos técnicos das antigas guildas. Modo de vida, tradições e técnicas reavivadas na Inglaterra pelo Pré-Rafaelistas, pela ARTS and CRAFTS por William Morris (1834-1896). Na Alemanha pelos Nazarenos e pela Werkbund. 

Detalhe MESSELE-WIESER, 2013, p.69
. Fig 06 – No ângulo esquerdo, de quem olha o quadro, Ferdinand Schlatter representou a pequena localidade de  Bom Princípio em 1911, Contextualiza a cena sacra e a evoca para o aqui e agora no âmbito do repertório empírico  do fiel.

            O que é certo é que a formação de Schlatter foi tanto profissional como intelectual. Conforme MESSELE-WIESER (2013: 12-13) aos 14 anos Ferdinand abria o atelier do seu mestre as 6 horas da manhã. Trabalhava até o meio dia. Retornava as 13h00 para encerrar as atividades as 20h00 depois de arrumar o atelier, lavar os pinceis e deixa-los na água. Depois disto ele frequentava a escola para estudar contabilidade, caligrafia, aritmética e geografia até as 22h00. As aulas de desenho eram aos domingos entre as 10h00 e 15h00.

In  MESSELE-WIESER, 2013, p.68
. Fig 07 –  A preparação e desenho do mural da igreja  de  Bom Princípio de Ferdinand Schlatter. Ele representou a pequena localidade, em 1911, inclusive a casa de 3 andares de Augusto Froener onde, MESSELE-WIESER  (2013: 70) supõe que se hospedou o artista. .

Ferdinand SCHLATTER migrou ao Brasil antes do final século XIX e antes de completar trinta anos. Foi ser colono no meio da floresta virgem na fronteira agrícola de Ijuí no Rio Grande Sul. A sua formação artística foi mais forte. Em 1901 ele retornou á capital para exerce um amplo leque de atividades culturais e, entre elas, a de pintor.
É necessário esclarecer que não vinha com nenhuma missão artística, pretensão de ser gênio ou para ocupar cargos oficiais honoríficos. Ele contornou a recém-criada Escola de Arte e o Instituto Parobé, instituições para as quais tinha qualificação suficiente para ser professor. Os trabalhos se sucediam para SCHLATTER. A sua obra era a sua publicidade. Apenas se anunciava como e profissional, mestre e técnico qualificado. Não fazia sombra ou concorrência a colegas artistas.
Detalhe MESSELE-WIESER, 2013, p.71
. Fig 08 –  No ângulo direito de quem olha o mural da igreja  de  Bom Princípio de Ferdinand Schlatter a casa do fabriqueiro da igreja. A típica casa do imigrante germânico com a cozinha separada da casa para prevenir incêndios. A propriedade cercada de taipas de pedras contendo as demais benfeitorias
Esta plena inserção na época e sua capacidade de fazer leituras de estilos e épocas colocaram em segundo plano, ocultaram  ao público e aos críticos de sua época o ser humano e a vida deste bávaro. Assim sua obra foi consumida como trabalho junto com a Arte-Nouveau em Porto Alegre.
In MESSELE-WIESER, 2013, p.70
. Fig 09 –  O mesmo cuidado na preparação e desenho do mural da igreja  de  Bom Princípio de Ferdinand Schlatter. O tema é o da casa Pedro Scherer um dos líderes comunitários e o pai do futuro cardeal Dom Alfredo Vicente Scherer (1903-1996). Este tinha, nesta época, oito anos de idade.

A exposição no Salão Pan-americano de Arte de Saint Louis nos Estados Unidos, em 1904[1], e em Porto Alegre em 1901 não valeram, para Schlatter, a sua promoção para o rol dos artistas considerados oficialmente como o tais. Calou-se e deixou de insistir com os meios de consagração em Porto Alegre ou fora da província. Sua ausência é sentida no Salão de Outono de 1925 como o da Escola de Artes de 1929. Também não se conhecem exposições individuais ou retrospectivas.



[1] Latin American and Latino Art in the Midwestern United States  page 13  http://latinostudies.nd.edu/midlad/HeritageWeb.pdf

 
Fig 10 –  Na Biblioteca Pública de Porto Alegre Ferdinand Schlatter teve ocasião de mostrar toda a sua competência técnica e estética. Evidente que toda a comparação é odiosa. Considerando o lugar e tempo desta realização ela é índice de uma época, de um paradigma e um modo de vida. A decoração da Biblioteca continuou o sucesso do artista na ambientação interna do prédio da prefeitura de Porto Alegre. Ambos os trabalhos Inscrevem-se na gramática estilística da época do historicismo. Nenhuma destas obras foi poupada pela tendência racionalista e pragmática da geração seguinte. Existem vestígios. Como da imagem que estão sendo recuperados debaixo de camadas sucessivas de tintas

Diante disto pretende-se mostrar um pouco do ser humano e das suas finas observações de meio ambiente que encontrou no Brasil e no Rio Grande do Sul
Detalhe MESSELE-WIESER, 2013, p.137
. Fig 11 –  Os relatórios anuais  de Ferdinand Schlatter como administrador do atual Parque que cerca a atual sede da SOGIPA do 4º Distrito de Porto Alegre mostram o seu empenho em adquirir esta obra, o seu paisagismo básico e as organizações sociais entre os quais se situa a Oktoberfest que nasceu por sua iniciativa e a Casa dos Bávaros decorada por ele.  No meio dos percalços, proibições e tabus ele conseguiu congregara e motivar como ator, poeta e supervisor uma obra que foi assumida e continuada por uma geração que assimilaram estes saberes superiores do artista.

Ele gozava o estatuto de estrangeiro na sua capacidade de perceber e evidenciar o novo e o diferente de sua pátria de origem como apontava na época Georg SIMMEL. Estas observações visuais estão nos seus cadernos de apontamentos e nos recantos de obras pictóricas. Elas foram pesquisadas e registradas com muita sensibilidade por Sandra MESSELE-WIESER. E, como ela sugere, faltam muitas pesquisas para evidenciar muitos outros destes documentos.
In MESSELE-WIESER, 2013, p.116
. Fig 12 –  Outra imagem dos relatórios  de Ferdinand Schlatter mostram o as motivações que conduziram administrador do Parque a atual sede da SOGIPA. A caneca de chope dos HABERS (HB)  e os QUATRO F’s que distinguem as sociedades de ginásticas alemãs desde o ano de 1848 Assim o artista ultrapassava os naturais  percalços, proibições e tabus e conseguiu congregar e motivar os que se acercavam desta obra que sempre foi coletiva.

Pode-se argumentar que Schlatter viveu numa época de passagem entre paradigmas culturais. Art Nouveau, Maneirismo ou Helenismo possuem muito em comum com a Pós-modernidade. Pós-modernidade com de horror ao vazio, caraterística dos períodos de passagem entre paradigmas. Pós-modernidade que exibe, em toda parte, paredes e monumentos grafitados sem trégua.

Detalhe MESSELE-WIESER, 2013, p.136
. Fig 13 –  A imaginação e o desenho de Ferdinand Schlatter aproximam a sede da Sociedade de Ginástica Porto Alegre(SOGIPA) na Avenida Alberto Bins (São Rafael) com o parque esportivo do 4º Distrito de Porto Alegre e distante 4, 5km  da sede. Ele era o administrador do parque esportivo. Adquiriu, concebeu, desenhou, ajardinou e tratou do paisagismo fundamental que este parque guarda até os dias atuais quando é patrimônio mais valorizado desta sociedade.
  
 Assim é lícito perceber as obras de Ferdinand Schlatter como grafites. Como grafites estas obras foram vistas como efêmeras e menos importantes diante da sóbria e modernidade clássica. Modernidade clássica dos cubistas e minimalistas que se ergueram e se afirmaram no polo oposto daquilo que eles entendiam como pura gratuidade visual, esteticismo hedonista e kitsch.
Detalhe MESSELE-WIESER, 2013, p.136.
. Fig 14 –  O “SPIELPLATZ” – ou campo esportivo -  da SOGIPA recortado de um diploma desenhado, em 1913, por Ferdinand Schlatter depois de sua viagem à Europa ao longo do ano de 1912. Em primeiro plano a representação de uma típica construção bávara.  Ao fundo a mesma tipologia para outro pavilhão. São as suas preocupações da mente sadia num corpo sadio. O atleta, representado em seu traje branco, é um dos que correram, neste mesmo ano, os 110 km em 08h59min,.

A onda grafiteira da Pós-modernidade de Jean-Baptiste Basquiat (1960-1988), de Andy Warhol(1932-1987) e mais recentemente o misterioso Banski pode ser favorável à memória de Ferdinand Schlatter.
A vida e a obra de Schlatter são ricas, variadas. Na conceção de Worringer (1908) elas oscilam entre a Natureza (Einfühlung) emocional e a Abstraktion racionalista. A sua vida e suas obras revelam as suas tendências comandadas por seus impulsos naturais. Impulsos do  “Einfühlung” o levaram a buscar os trópicos, a floresta brasileira e depois se entregar a um trabalho onde quer que fosse chamado. Porém o seu lado racional, da “Abstraktion” comandou a sua formação e prosseguiu vida afora numa profunda coerência com o fazer social, técnico e transformador num ambiente onde tudo estava para se fazer. 
oto do AUTOR em 06. 2009 – SOGIPA.
. Fig 15 –  As letras góticas grafitadas por Ferdinand Schlatter estão, desde julho de 1924,    numa parede externa da Casa dos Bávaros da SOGIPA. O poeta compôs e o pintor escreveu “Quem sua língua não consegue domar – E maldosamente a respeito de todos falar – saiba com clareza por este dito – Que o acesso a esta casa lhe é interdita”   Tradução  de  Messele-Wieser, 2013, p. 114.

O ambiente que ele criou respondeu com a mesma intensidade sem abstrações, leis racionais e abstratas. O movimento contrário - e preso ao racionalismo - surpreendeu a memória de Ferdinand Schlatter e da qual o modernismo clássico era a expressão diametralmente oposta e carregado com o polo e energias da Abstração na concepção de Worringer.
In MESSELE-WIESER, 2013, p.56
. Fig 16 –  O levantar do sol sobre Bom Princípio de Ferdinand Schlatter  remete para levantar do sol que deu nome à tendência impressionista.  O tema mostra a atmosfera rural não poluída do Novo Mundo. Contrasta assim como o ar poluído do amanhecer de Claude Monet. Porém o que é comum a ambos os quadros é o gozo puro e direto da Natureza transposto com maestria para os meios estéticos como as tintas, e as cores sobre uma singela superfície.

O legado de Ferdinand Schlatter tinha tudo para ser esquecido rapidamente diante do triunfo da Abstração. Além disto este apagar a memória ocorria em um ambiente naturalmente impregnado de colonialismo e de servidão. Servidão e a escravidão reacenderam as brasas e o fogaréu da memória do colonialismo, no qual, quem podia, se esquivava do trabalho com as mãos. Todos aspiravam à Abstração das leis, de uma ciência amputada da experimentação prática e no mando puro e abstrato, sem dó nem piedades de quem tinha de obedecer e trabalhar com as mãos.
Foto do AUTOR em 06. 2009 – SOGIPA.
. Fig 17 –  O visual das letras góticas a s coloridas iniciais grafitadas por Ferdinand Schlatter revelam o poeta, o filósofo . SCHLATTER compôs e escreveu “Nestes quadros todos podem apreciar- Quanto alemães na colônia vão trabalhar – Como no campo e no mato através do labor – É adubado com germânico suor – Após  centenários esforços e cuidados – Não podemos mais dizer somos convidados – Mas sim como senhores da gleba nos sentirmos -  Aos descendentes dos imigrantes dizemos- A velha pátria sempre lembrai - À nova, no entanto, sempre vossa lealdade dedicai”   Tradução  de  Messele-Wieser, 2013, p. 115

 Jogou-se fora a criança com a agua do banho com a destruição da obra este mestre e técnico. Criança jogada fora que consistia no conhecimento, no saber e na cuidadosa da formação técnica deste artista. Conhecimento, saber e formação técnica que não encontraram equipes capazes de receber, estudar e reproduzir no tempo estes saberes milenares. Também nenhuma instituição ou museu qualificado se prestou para se constituir em arquivo da sua memória, estudo ou socialização deste legado. São pessoas singulares empenhadas em projetos não amparados quer pela iniciativa privada corporativa ou pública.
Na contramão,  desta preocupação, é necessário ter cuidado para não transformar Karl Ferdinand SCHLATTER em vitima. Ou então em gênio incompreendido, tão a gosta da indústria cultura. Deviam ter as suas razões e urgências aqueles que o contornaram, esqueceram e apagaram.  Supõe-se pesquisa ponderada e calma necessária para um julgamento das duas partes envolvidas. O fiel da balança irá tender a favor tiver o mais humano e melhor projeto civilizatório permanente para Porto Alegre e para a cultura brasileira.   

FONTES BIBLIOGRÁFICAS
DAMASCENO, Athos. Artes plásticas no Rio Grande do Sul (1755-1900)  Porto  Alegre:  Globo, 1971. 540p.

MESSELE-WIESER, Sandra Brasilien” «Brasil» Ferdinand Schlatter  o pintor de Lindau no Rio Grande do Sul. Würzburg: Spurbuchverlag, 2013, 152 p. il.  ISBN 978-3-88778-394-5

MOREIRA, Altamir A MORTE e o ALÉM: iconografia da pintura mural religiosa da região central do Rio Grande do Sul (século XX) -Orientador José Augusto Costa Avancini – Porto Alegre: UFRGS- Instituto de Artes Programa de Pós Graduação em Artes Visuais- Tese  2006

SIMMEL, Georg  Sociología y estudios sobre las formas de socialización. Madrid:         Alianza. 1986,  817.  2v.

WORRINGER,  Wilhelm (1881 - 1965).  Abstraccion y naturaleza.  (1ª.ed. em 1908).  México :  Fondo de Cultura   Econômica, 1953. 137p

FONTES NUMÉRICAS DIGITAIS
DEUTSCHER MICHEL

Exposição de Ferdinand Schlatter nos Estados Unidos em 1904
Latin American and Latino Art in the Midwestern United States  page 13

SCHLATTER e a GERMANDADE
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Círio SIMON








segunda-feira, 2 de junho de 2014

87 –ISTO é ARTE

CLÉBIO GUILLON SÓRIA no seu

 GALOPE INCESSANTE.
-"Heureusement que moi, je n'ai pas trouvé ma manière; ce que je m'embeêterais."
“Felizmente não encontrei a minha maneira; isto me aborreceria”'
 http://www.poder-originario.com/news/os-juizes-do-gosto-/


Detalhe do mural  da Estação Mercado do TRENSURB  POA RS - 1986
Fig. 01 – A obra de Clébio Guillon Sória  (*1934- +1987) abriu um caminho próprio e único que durou no seu rápido e intenso trânsito. Como não aceitou copiar a si mesmo, também seria temerário algum discípulo seguir este “GALOPE INCESSANTE” que tinha a sua própria lógica, natureza em constante mudança.

Clébio Sória não renegou as suas origens telúricas e culturais. Construiu a sua obra ao longo seu trânsito entre a sua terra de origem  e o novo espaço humano. Neste trânsito não plagiou nem a si mesmo retroceder sobre o seu percurso.  Clébio sabia que nos seu GALOPE INCESSANTE não existem caminhos. Estes são feitos e criados no galope incessante do TEMPO e deixam apenas rastros. Se ele retornar sobre seu rastro  perderia o seu bem maior que é o TEMPO e retrocedia sobre as próprias pegadas sem criar algo de novo e inédito. Sabia que não podia plagiar a si mesmo ao repetir o seu  próprio trajeto.


Detalhe do mural  da Estação Mercado do TRENSURB  POA RS - 1986
Fig. 02 – O repertório existencial e plástico de Clébio Guillon Sória  partiu das suas experiências pessoais com as grandes invernadas e fazendas de criação pecuária. Ele associou ao momento indústria representado pela ferrovia que transportava este produto aos frigoríficos, ao porto de Rio Grande ou então entregava este produto em vagões frigoríficos diretamente ao mercado de São  Paulo e para a capital federal.

A grande arte de Sória é o de conjugar o seu caminho entre o  seu ENTE no seu modo de SER. Conjuga o seu TEMPO com o seu LUGAR DETERMINADO. Pratica esta arte sem se prender à sua própria maneira e sem se constitui em modelo de si mesmo.

Porem neste galope incessante Clébio não vai solitário. O tropel de toda uma geração o acompanha pois é movido pelo mesmo desafio. Os estímulos recíprocos para expressar o seu ENTE no seu modo de SER num TEMPO e num LUGAR DETERMINADO são comuns e compartilhados entre eles. Toda esta geração de artistas sul-rio-grandenses – do passado e do presente – realiza esta caminhada pelas artes. Porém o realizam de uma forma livre e corajosa. Nesta sua autonomia e criatividade são competentes para praticar consigo mesmos e com a sua obra, a todo instante, uma ruptura epistêmica e estética. Não plagiam a si mesmos e muito menos de sua maneira de ver, de sentir e de praticar a sua arte. Praticam incessantemente a esta ruptura e cultivam o hábito de integridade intelectual.


Detalhe do mural  da Estação Mercado do TRENSURB  POA RS - 1986
Fig. 03– Clébio Guillon Sória  interpretou a Revolução Farroupilha e o gesta temerária de Giuseppe Garibaldi de transportar os lanchões por terra. Para esta obra conjuga as linhas diagonais do comboio com as linhas horizontais da paisagem que são rompidas e emprestam o dinamismo plástico coerente com o dinamismo psicológico do autor e desta gesta.

Clébio após a sua ruptura epistêmica e estética sabia reinventar-se e quanto isto lhe custava. Soube sair de sua terra, submeter-se livre e conscientemente à heteronomia de mestres qualificados. Após isto soube conjugar o seu ENTE no seu modo de SER num TEMPO e num LUGAR DETERMINADO.


Detalhe do mural no Solar San Raphael - Praça Portão  POA RS - 1987
Fig. 04 – A obra de Clébio Guillon Sória - quando traduz a temática urbana – busca, seleciona e aplica os elementos plásticos deslocados do centro da superfície e os dispõe de forma a gerar tensões de volumes que refletem o ente do artista no seu modo de ser  rápido, caligráfico sem concessões com o puro decorativismo ou formalismo de uma unívoca e linear.

No centro de cada de obra de arte de Clébio Sória reside a autonomia de quem a concebeu, portanto o seu pensamento. Quem concebeu a obra de arte  recebe a sua autoria. Esta autoria e iniciativa pode ser um soberano, um grupo ou um artista isolado. A partir da modernidade a autoria é preferencialmente atribuída a um artista singular. Esta autoria imprime o seu pensamento nesta obra e expressa a sua autonomia. Portanto ele também não pode ser constrangido a seguir um estilo, uma escola ou mestre. Assim Clébio Sória perderia a sua autonomia e se colocaria na heteronomia mesmo que fosse o Clébio de antes da nova obra de arte a ser criada.


Fig. 05 – A imagem da obra - ao fundo da foto de  Clébio Guillon Sória -  mostram a linha e a sua disposição sobre o plano numa busca incessante de um grafismo capazdedar conta dos sonhos

A frase de Edgar Degas, acima citada, é coerente com a pessoa e a obra de Clébio Sória. Sória, como Degas, experimentou a arte satisfazendo a  exigência e a distinção aristotélica de que “a arte está no que produz e   não no que produz”. Esta produção é apenas uma senda simbólica para indicar a caminhada, de um ou do outro, pelo campo das forças da arte.

Este fato permitiu aos dois artistas não se plagiarem a si mesmos e, assim, ficarem reféns de uma “maneira” inventada num dado momento do caminho nas artes. De outra parte, esta liberdade, exigiu o tempo todo em que perambularam neste campo rupturas estéticas e epistêmicas para permanecerem fieis a si mesmo, ao seu tempo e lugar.

Detalhe do mural no Solar San Raphael - Praça Portão  POA RS - 1987
Fig. 06 – A Clébio Guillon Sória  como muralista tinha uma admiração pela Arquitetura contemporânea a ele eque permitia generoso espaço para o exercício do muralismo. Tornou-se professor das primeiras turmas da Faculdade de Arquitetura da UNISINOS cujos estudantes guardam lembranças da conjugação ainda possível entre a Arte e a Arquitetura.

Dada esta originalidade, e a coerência com o seu tempo e lugar, tanto Clébio com Edgar Degas não possuem seguidores deste seu caminho único. Isto não impediu que ambos incentivarem outros a aceitar este desafio de serem únicos e coerentes com o seu tempo e lugar. Ambos sabiam que “aluno não faz arte, pois esta na heteronomia do mestre”.
           A coerência de Clébio Sória está muito distante de uma maneira peculiar, de um sistema e muito mais ainda de um estilo. De outra parte esta coerência evitou qualquer ecletismo estilístico

Mural para a Faculdade de Medicina da UFRS entregue no dia 03 de julho de 1965
Fig. 07 – Na transição entre a sua permanência no Instituto de Artes e suas primeiras obras monumentais, a obra de Clébio Guillon Sória expressa a sua passagem pela disciplina cubista e o grafismo da linha

Superadas estas condicionantes Clébio pode se entregar si mesmo. Do lado externo, a esta aventura pessoal e única, o seu observador da obra deste artista  possui a fortuna de encontrar alguém desvelando e mostrando o seu ser sem subterfúgios e falsetes.

No plano conceitual mais elevado da Filosofia Clébio Sória nos desvendo o seu SER no seu TEMPO. TEMPO expresso no seu GALOPE INCESSANTE e a urgência de deixar as pegadas do seu SER nas suas obras. Agora os dois pertencem irremediavelmente ao passado.


Clébio Sória e o projeto do  mural  da Estação Mercado do TRENSURB  POA RS - 1986
Fig. 08 –  Clébio Guillon Sória seguia os ensinamentos dos  seu mestre Aldo Locatelli (1915-1962) para quem 75% do trabalho do artista estava na concepção de sua obra. O problema residia na fidelidade e coerência do muralista na sua obra definitiva   Clébio não abria mão de ele mesmo passar esta concepção para a obra definitiva.

Se de um lado é de lamentar o desaparecimento do artista fragilidade das pegadas de suas obras. Contudo estas obras na sua fugacidade e fragilidade carregam o máximo do SER e do seu TEMPO. A fortuna da memória da pessoa desta obra e do artista repousa, hoje, na sua sólida família. Esta memoria familiar carregam documentos, registros e obras que permitem ao pesquisador seguira tradição de Giorgi Vasari que escreveu a História do Renascimento Italiano valendo-se da memoria dos familiares dos artistas deste fundante da cultura europeia.  


                                                                                                    GROYS -2000 p.54
Fig. 09 – Nietzsche afirmou (2000, p.134) que “a arte não pode ter sua missão na cultura e formação, mas seu fim deve ser alguém mais elevado que sobre passe a humanidade. Com isso deve satisfazer-se o artista. É o único inútil, no sentido mais temerário.  Esta inutilidade e temeridade segue a lógica da própria vida que é gratuita e não pergunta por que apareceu neste planeta. Conforme Groys (2000: 54) o artista na sua temeridade  gratuidade constrói forças, meios e motivações num mundo utilitário e pragmático que abrem mundos e mentalidades motivações um caminho próprio e único que durou

O livro e a Exposição no CENTRO CULTURAL CEEE são ocasiões, em 2014, para visitar as pegadas do  GALOPE INCESSANTE do percurso único de  Clébio Guillon Sória. Nesta exposição e livro é possível conferir o seu trânsito, sem retrocessos, sobre o seu caminho.  Não plagiou, nem a si mesmo, pois sabia que não existem caminhos. Estes são feitos e criados no GALOPE INCESSANTE do TEMPO e apenas deixam rastros. GALOPE INCESSANTE no qual o artista soube conjugar coerentemente o seu ENTE e o seu modo de SER no seu TEMPO.

FONTES BIBLIOGRÁFICAS
GROYS, Boris A obsessão pelo novo e o encanto do elitista. BONN: Inter Nationes - Humbold  nº 81 2000 p. 54-56      http://www.hanser-literaturverlage.de/buecher/buch.html?isbn=978-3-446-20964-0
 HEIDEGGER, Martin (1889-1979) SER e TEMPO edição em alemão e português tradução e organização de Fausto Castilho (1929- ). – Campinas SP: Editora da Unicamp; Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 2012, 1199 p.
 NIETZSCHE, Frederico Guillermo (1844-1900)  Sobre el porvenir de nuestras escuelas. Barcelona: Tusquets, 2000. 179.
 VASARI, Giorgio (1511-1574) Vidas dos artistas. São Paulo: Martins Fontes, 2011,  824 p.
      ISBN 9788578274283  -   http://www.livrariasemfronteiras.com.br/produtos.asp?produto=811232
   
FONTES NUMÉRICAS DIGITAIS
GALOPE INCESSANTE
TRENSURB


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