domingo, 27 de abril de 2014

085 - ISTO é ARTE

ESTÉTICA do QUARTO DISTRITO de PORTO ALEGRE
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      Na leitura estética do Quarto Distrito de Porto Alegre encontram-se índices culturais dos mais variados. Com atenção - e com a proximidade - percebem-se, neste lugar de passagem, os mais variados estágios da civilização humana.

Fig.01 - O pequeno indígena atravessa uma rua do Quarto Distrito portando a tradição estética de seus ancestrais. Tradição que assimila e mistura usos e costumes enquanto faz o seu caminho. A industrialização lhe emprestou elementos visuais que ele adapta à  forte identidade visual da tribo. Ele  não busca esconder ou dissimular esta identidade visual determinante na sua presença e trânsito nomeio urbano. Também não faz proselitismo desta tradição e visualidade.

A naturalização destes índices culturais favorecem a descaracterização e a corrupção da natureza da criação humana da arte. Em contrapartida não são menos perniciosos e corruptores a mitificação da arte e seu cultivo fora das suas circunstâncias de origem.

 Uma manifestação artística ou cultural corre menor tentação e risco de ser vítima de generalizações injustas ou comparações odiosas quando se conhecem,  se privilegiam e se aceitam os limites das competências da sua origem. Conhecimento e vontade que afastam tentativas estéticas redutoras das sensações intuitivas e diretas para os sentidos humanos. No lado oposto - esta mesma aceitação e o conhecimento destes limites - afasta também esquemas mentais mistificadores de uma mente exaltada, ideológica, hegemônica e a sua aplicação subliminar em proveitos escusos.


Fig.02 - No Quarto Distrito estão ainda fortes os vestígios da era industrial marcada pelo ritmo implacável e soberano do relógio mecânico de rodas e engrenagens. Este tempo, marcado por instrumentos industriais, cede terreno ao tempo marcado pela precisão e onipresença da era pós-industrial comandada por instrumentos digitais sem rodas e engrenagens.

Mesmo no limite distrital ocorrem expressões artísticas muito diversificadas. No sentido inverso é possível argumentar que este distrito representa um fractal do universal de sua época e da cultura loca. A dialética entre o diminuto distrito e o universal não representa intriga e nem desqualificação.

Intrigas e desqualificações promovidas por grupelhos de gabinetes - formados por atravessadores, mediadores ou pseudo tuteladores - surpreendem este PODER ORIGINÁRIO e emitem, em seu nome, ordens de vida e morte. O último que consultam é o PODER ORIGINÁRIO das questões essenciais relativas a um bem simbólico ou material. Assim atravessadores, mediadores ou pseudo tuteladores constroem, derrubam e aniquilam conforme seus interesses e FAZENDO besteiras irreversíveis. É o que aconteceu - no Quarto Distrito de Porto Alegre - com o solar de Dom Diogo de Souza, governador da Província e depois Vice Rei da Índia.  A lógica linear da Era Industrial, unívoca e totalitária considerava este Solar Colonial lusitano não só anacrônico sob todos os aspectos, mas ocupando um precioso espaço num país imenso e até perigoso como esconderijo de “bandidos”. A lógica Industrial por não conhecer e reconhecer a memória material e imaterial nos vestígios  do  período que a precedeu por sua vez vem  sendo arrasada por atravessadores, mediadores ou pseudo tuteladores que agora, agora, em nome da Pós-modernidade.


Fig.03 - Na medida em que o tempo passa a ser marcado pela precisão e onipresença da era pós-industrial entregue aos instrumentos digitais sem rodas e engrenagens surgem expressões insólitas  no Quarto Distrito. Metáforas de um tempo de ócio e de retorno à estética dos primórdios de todas as civilizações. Civilizações que sondam sentimentos,  buscam diálogos com improváveis interlocutores  por meio de insólitas estéticas, materiais e obras gratuitas e fora de qualquer sistema econômico

 Um dos traços da pós-modernidade reside nesta glória oculta do arquiteto e urbanista, com a sua “fama por quinze minutos” que é compartilhada por milhares e produtores, comerciantes e clientela que circulam no Quarto Distrito. A era industrial faz-se no presente na administração do tempo pelo relógio do se funcionamento. Porém tudo isto possui sólido fundamento na era agrícola cuja produção aflui e  é a energia. A onda de retorno ao campo, para a informação, a seleção e a reprodução  genética vegetal é praticada cada vez mais de forma intensiva com a intervenção da informática.

Os pavilhões da CEASA do Quarto Distrito constituem um nó de circulações, palpitações e interações urbanísticas.  Obra e urbanismo concebidos pelo arquiteto uruguaio Eládio Dieste (1917-2000). Obra e urbanismo aparentam tal naturalidade que poucos dos seus frequentadores diários personalizam - ou mitificam - o autor do projeto deste espaço e das coberturas em tijolos cerâmicos. Porém este espaço urbano e arquitetônico não só orienta e abriga os seus milhares de usuários. Ele também se constitui em chave da leitura e do  entendimento e conexão das três infraestruturas materiais e mentalidades com os seus modos de ser e vida completares e distintos entre si mesmos.


Fig.04 - A saudade do campo - cultivada no meio urbano - encontra no sítio destinado à estatua do laçador a expressão estética e marca simbolicamente o Quarto Distrito.

O Quarto Distrito de Porto Alegre, constitui um espaço urbano no qual é possível acompanhar a implantação, o apogeu e o colapso da era industrial. No seu abandono é índice do acúmulo de capitais, mão de obra, matérias primas e de máquinas que tiveram seu tempo e se esvaíram ou se tornaram obsoletos. Ao mesmo tempo é testemunho da reciclagem, readaptação ao seu papel de estacionamentos de eventuais empreendimentos de passagem por este sítio urbano. De um lado é possível perceber que tudo o que sólido desmancha no ar, como aconteceu no dia 03 e maio de 1971 com a explosão de uma fábrica de fogos. De outro lado o PODER ORIGINÀRIO é desafiado a entender este passado, romper com o que é obsoleto e crer no seu imenso potencial de criatividade, de persistência e de renovação. Na cultura imaterial este bairro é permeado pelo cortejo da Santa que empresta o seu nome a este pedaço de Porto Alegre. No dia 02 de fevereiro de cada ano a convergência é para este local. Por água pra dar sentido ao porto ou por terra para visitar e estimular aqueles que são permanentes neste local.

A História não existe como um ente separado. Ela possui manifestações e expressões. Estas manifestações são realizadas preferencialmente por meio de narrativas orais, escritas ou icônicas. Os amadores discutem as estratégias destas narrativas. Os profissionais preferem a logística destas narrativas conforme Evaldo Cabral de Mello.

O bairro Navegantes de Porto Alegre guarda um enorme conjunto logístico aguardando a ser transformado em narrativas de toda ordem e em todos os níveis de repertórios dos seus agentes.  Este bairro foi o cenário da implantação, do apogeu e do colapso da era industrial na capital do estado. Ao longo da era industrial a mão de obra confluiu de todos os recantos deste estado e de fora dele. Esta concentração de forças também trouxe os mais variados repertórios e visões de deste mundo. Estas forças  e os seus respectivos repertórios e narrativas decorrentes ainda estão em fase de decantação. O artista e político Guido Mondin criou uma narrativa que enfeixa as visões e percepções de mundo do PODER ORIGINRÁRIO e que, em reiteradas ocasiões, lhe confiou representá-lo junto aos poderes constituídos da Nação brasileira.


Foto LuisEduardo ACHUTTI
Fig.05 - A vocação do Quarto Distrito para a CONQUISTA do ESPAÇO vem desde os primórdios da aviação comercial em Porto Alegre. A lendária pista do campo de São João já está no passado como as numerosas companhias comerciais que ali iniciaram as suas operações ou as usavam para atingir e partir da capital do Rio Grande do Sul.
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A estética de uma mesa é índice indiscutível da cultura do povo que a põe. Além do mais é o cenário ao redor do qual os gostos se dividem, explodem as intrigas e traições e é sobre esta mesa que se tenta consertar os cacos resultantes das pelejas. Mas também nesta mesa conserva-se, se reproduzem e se atualizam os hábitos civilizados. Nesta mesa civilizada afastam-se ressentimentos, desigualdades e  provações de toda ordem. Quem transita, estaciona temporariamente ou vive no QUARTO DISTRITO encontra um variado visual culinário. Para o PODER ORIGINÁRIO ali radicado a sua mesa é o lugar do cultivo e da expressão das suas mais puras energias positivas. No QUARTO DISTRITO também não possui um prato típico ou especialidade culinária predominante como no restante das expressões culturais. Na apresentação, desta mesa, reina uma SALADA visual como ao redor dela  confraternizam estéticas e etnias ao modelo do que acontece nas IDEOLOGIAS que ali circulam. Por sua vez a era industrial impôs rituais e etiquetas coerentes com a pressa, a divisão de trabalho e sob estrito controle do onipresente relógio. A migração, da área rural e da campanha sul-rio-grandense, trouxe os hábitos alimentares do campo para o  QUARTO DISTRITO. Porém tiveram de serem reelaborados  e tornados coerentes com a indústria e produção  em série. Mesmo distantes no tempo e nos lugares de origem da mão de obra uma grande série de restaurantes se adaptaram e cultivam, de outra forma, estes hábitos campeiros. Estes rituais e etiquetas convergiram do paradigma da CHURRASCARIA ao MODELO daquele que o empresário industrial Alberto Bins consagrou na Exposição Farroupilha de 1935[1]. A tradicional CABANA dos SANTOS formou gerações que multiplicaram os rituais, a etiqueta e a configuração visual deste modelo no espaço público tornaram-se verdadeiras referências gastronômicas. Estas referências foram  reforçadas na medida em que QUARTO DISTRITO concentrou a sua vocação como grande espaço de estacionamento de transportadoras. Os motoristas do interior, que demandam a capital, tornaram-se os seus clientes preferenciais.


Fig.06 - A paisagem do Quarto Distrito é rasgada por variadas vias terrestre, aérea e fluvial.

O QUARTO DISTRITO é uma área de transição e permanentes andaimes de obras em construção. Nesta transição ele guarda traços do passado é coerente com a atual o Pós-Modernidade e não para e projetar a sua vida futura.  Como todas estas realidades não cabem num único paradigma poucos dedicam tempo, vontade ou interesse  em conhece-lo e trabalha-lo numa dimensão abrangente. Os que se valem dele,  chegam  de outra parte, estacionam,  trabalham e procuram outros ares por terra, rio ou aeroporto e em lugar bem  diferente do seu burburinho de estranhos entre si. O seu SER está marcado pelo TEMPO precário e fugaz, como a própria VIDA que palpita nele.  O QUARTO DISTRITO leva uma vida precária e efêmera. Assim é  IMPOSSIVEL ser CONFORMISTA no QUARTO DISTRITO de PORTO ALEGRE como lugar de passagem, de embarque e desembarque .   Poucos passam toda a sua vida neste lugar do planeta. Como lugar de estacionamento chegam  e outra parte, trabalham e ganham outros ares. Assim poucos tem tempo de conhecer o Quarto Distrito como um todo ou  em alguns das aspectos aqui apontados. Assim os que chegam, os permanecem ou partem possuem em suas mentes uma SALADA visual, estética e até IDEOLÓGICA no meio destes vozerios de ‘efeito cock-tail’ na medida em que os atores se aglomeram e tentam falar neste ambiente de sua impressões pessoais.


Fig.07 - As pontes do Quarto Distrito constituem um capítulo a parte da paisagem e da estética do Quarto Distrito. Pontes que na concepção da engenharia soa “obras de arte” certamente constituem, no Quarto Distrito, uma  singular “arquitetura sem arquiteto”. Não são como as do arroio Dilúvio com a carga estética que o artista Francisco Bellanca que lhes conferiu. Além do mais fogem da lei municipal ou a contornam – relativa a presença física de uma obra de arte para lhes propiciar uma identidade visual  própria e única.

Pontes e água forma uma mesma realidade. A vida depende da ÁGUA tanto na sua origem, no seu desenvolvimento e na sua reprodução. Até 2014 o planeta Terra é único conhecido que possui ÁGUA suficiente para manter o processo da vida autossustentável. A responsabilidade humana cresce na medida em que esta criatura toma estas forças da vida em suas mãos e nelas interfere. Forças que se sustentam num equilíbrio homeostático e cujas variáveis escapam ao entendimento e ao controle humano como se percebe nas catástrofes climáticas recorrentes e cada vez mais frequentes. É indubitável que a ÁGUA potável é um bem limitado. O esgotamento, a poluição e envenenamento dos mananciais já é uma realidade gritante em diversos pontos do planeta. O agravante é que esta criatura cada vez mais é responsável pelo condicionamento em que deseja viver e se perpetuar através e sucessivas gerações. A sanção dos atos humanos ultrapassa a moral e castigo é físico. Esta sanção tira prêmio ou castigo físico diretamente no âmbito do bem estar e na própria sobrevivência física da espécie.


Fig.08 - A vitrina física e concreta do comércio varejista e popular foi um poderoso meio de difusão, conhecimento dos mais variados produtos industriais e do artesanato. O Quarto Distrito teve várias empresas que se dedicavam ao vidro e suas mais variadas utilizações incluindo equipamentos para vitrines.
 A milenar arte do vitral e da cerâmica foi exercida por  artistas e artesões que instalaram seus ateliers e oficinas no bairro Navegantes. Um entre tantos foi o Hans Veit. Ele era herdeiro de uma tradição familiar na fabricação de vitrais e exímio artista da cerâmica. Consultor das fábricas de cerâmica de Criciúma. E notabilizou pelos portentosos vitrais espalhados pelo Rio Grande do Sul. Na cerâmica marcou presença nos emblemas das fachadas dos prédios da UFRGS construídos na sua época. Quando aera industrial começou a declinar no bairro Navegantes tentou passar adiante o seu saber teórico e prática por meio da Escola Técnica UABOI. Porém a linha e montagem, a produção em série e as escassas encomendas tinham os dias contados.

Hans Veit cultivou o seu nome como o artista contemporâneo. No outro extremo não perdeu os seus vínculos com o modo de trabalho da guilda medieval Mas este conjunto ele o conduziu para a linha de montagem em série. Assim jamais perdeu o contato com o PODER ORIGINÁRIO. Proveniente do repertório e da estética populares foi coerente na sua Arte  e na sua vida com esta origem.

As fábricas de vitrais que atuaram no bairro Navegantes foram vestidos, estudados e sistematizados pelo trabalho de  Mariana WERTHEIMER

Evidente que não existe uma ESTÉTICA OPERÁRIA. Existem manifestações e expressões profundamente marcadas pela vida operária, o seu modo de ser e algo em permanente mudança. Esta vida e mentalidade materializam-se pontualmente na Arquitetura como é visível no estudo (1975) de Blanca Brites. As apropriações e as adequações também são visíveis nos meio de comunicação visual como mostra o estudo de João Batista Marçal (2004). Este percebeu uma SALADA, estética e IDEOLÓGICA no meio destes vozerios de ‘efeito cock-tail’ nos órgãos de imprensa que tinham o operariado por seu alvo e clientela. Esta SALADA estética e IDEOLÓGICA está bem evidente produção e inclusive na apresentação visual dos jornais redigidos, impressos pelo operariado ou dirigidos a ele.

Porém o seu leitor adquire e reforça na escola seu gosto pelo  consumo dos bens simbólicos. Mesmo que esta escola tenha as peculiaridades de uma descrita pelo ministro, senador e artista Guido Mondin. 
... uma das mais singulares escolas: a do 4º Posto. Corria o ano de1920. A promoção era do Delegado de então, ali atuando por longo tempo, o Major Hercules Limeira, homem de admirável espírito publico. [..] A escola do 4} posto era de um professor só. O primeiro a lecionar naquela sala da delegacia foi o professor Armando Câmara, de tão grande expressão na vida social, cultural e política do Rio Grande. Um homem para brilhar na cátedra universitária, humildemente ensinava o bê-á-bá a crianças proletárias. Maravilhoso. Sucedeu-o, inaugurando a palmatória no castigo a assustados petizes, o professor Carlitos. Carlitos era aficionado de duas coisas: Futebol e cachaça. Noutras página falei do Esporte Clube Municipal, de que o simplório educador erigia-se no mais exaltado admirador. O clube estava no bairro, nas cercanias da escola, à rua Pereira Franco. Entusiastas também do Municipal eram os policiais lotados na 4ª Delegacia. Nós os chamávamos, então, de ratos brancos, não sei com que explicação. No dia seguinte a cada partida do time, não havia aula. Eram, professor e policiais, a comentar vivamente o jogo, o giz correndo no quadro-negro, na reconstrução de cada lance – e os alunos a divertir-se com a folia. A sala de aula ficava junto ao pátio da Delegacia. Quando o Municipal perdia, o silêncio era sepulcral, com o mestre amuado, só se ouvia, lá fora, o rascar das longas espadas dos ratos, riscando o lajedo, Eram também dia pletórico de palmatória, mão vermelhas e prantos, quando não do pouco pedagógico recurso de trancafiar os alunos desatentos nas celas, juntamente com ladrões de galinha que superabundavam no bairro. Sem dúvida uma escola franca, mas de risonha não tinha nada. Comas bebedeiras do Carlitos, parece que o major Limeira resolveu acabar com o curso. Se seus alunos porventura triunfaram na vida, tenha-se certeza de que não foi produto daquela atormentada alfabetização.  (Mondin, 1987,  pp.150-151)
MONDIN, Guido Fernando (1921-2000) Burgo sem água- reminiscências do 4° Distrito -  Porto Alegre: FEPLAN,1987 187 p.

Fig.09 - O ativo mestre Francisco Brilhante (1901-1987) manteve o seu atelier de desenho, pintura e fotografia no  Quarto Distrito. Ali fazia companhia não só outros mestres do bairro, mas também repassava a sua arte para jovens discípulos. A sua despretensiosa e direta maneira de levar ao povo a sua arte estão sendo seguido por uma legião de artistas de rua que o reconhecem como um pioneiro.

O colapso da era industrial em Porto Alegre é evidente no bairro Navegantes. No uso, na reinterpretação e readaptação dos seus imóveis a decadência deixou camadas sobre camadas. Índices perceptíveis nas cores soturnas e gastas pelas intempéries, pela degradação dos materiais e pelas camadas de poeira concentrada nestas obras urbanas e fuligem resultante das máquinas de antanho engrossada pelos veículos que trafegam e usam este ambiente como estacionamento.  Esta realidade em decadência foi a inspiração de artistas visuais, de jornalistas e cronistas deste o cenário. Um deles foi Gastão HOFSTETTER.  Vinda do ambiente gráfico forjou sólida amizade com esta equipe da Editora Globo comandada por Ernest ZEUNER (1895-1967), buscou profissionalização ao se juntar aos colegas na Associação Francisco Lisboa. A sua obra é coerente com a sua vida. Vida capaz de perceber as cores, as formas e a matéria dos seus temas e capaz de criar quadros que sobrevivem e são testemunhos dos sentimentos e conceitos dos quais era portador o autor destas pinturas. Os artistas e artesões instalaram seus ateliers e oficinas no bairro Navegantes. Eles respondiam cenário da implantação da era industrial em Porto Alegre. Entre eles estava o toreuta Romano Reif. Ele foi responsável por numerosos quadros de formatura em diversos estabelecimentos de ensino da época. Estas obras eram identificadas com a assinatura ‘ROMANO’. Figuravam e eram ostentadas em Porto Alegre em portarias de diversas escolas tradicionais da época. A matéria prima destes quadros-cenários era a madeira nacional abundante, rica e variada. Emolduravam a arte dos mais festejados fotógrafos estabelecidos em renomados ateliers da capital.

A inovação de Romano que permanece no final do século XXI numa firma que comercializar chapas aglomeradas sintéticas no Quarto Distrito como prolongamento de sua oficina de marcenaria. A memoria de ROMANO REIF é cultivada no nome de Biblioteca Pública na Vila do IAPI de Porto Alegre, pelo nome de rua e na lembrança dos seus alunos de Educação Física. Sua filha Margarida Reif, foi aluna do Instituto de Belas Artes do Rio Grande do Sul. Ela formou-se em escultura com o prof. Fernando Corona.

Detalhe de mosaico de Edmundo Colombo na Avenida Farrapos do 4º Distrito de Porto Alegre
A Fig. 10 -  indústria automobilística  sempre teve representes ativos e empreendedores  no Quarto Distrito. Esta vontade transfigurou se num MOSAICO público que EXALTA esta ERA INDUSTRIAL centrada na imagem do automóvel.

A estética do Quarto Distrito de Porto Alegre esteve  profundamente marcadas pela infraestrutura da industrial. As numerosas suas salas de cinema – eventualmente também teatros - se destinavam  massivamente para escoar a produção cinematográfica dos países hegemônicos industriais. Isto não impediu a produção local da 7ª Arte no Quarto Distrito nas mãos de Eduardo Abelim, nos jardins de Antônio Mondin (atual Praça Pinheiro Machado). Este material era distribuído pelo próprio Abelin que se tornava caixeiro viajante de sua produção. Não mais em mulas e cavalos, mas em automóveis com os quais fazia exibições ao vivo para as populações interioranas fascinadas com o novo modo de vida e que tornava obsoletos as suas práticas dependentes absolutamente da Natureza.

Vasco Prado 1967
Fig.11 - A figura de  Ruben Martin BERTA (1907-1966) é um entre os numerosos lideres empresariais que fizeram do Quarto Distrito a base física de suas variadas empresas. BERTA levou a empresa, que comandava, para todos os quadrantes do planeta. Ele como a geração de capitães de indústria desta parte de Porto Alegre mantiveram o projeto estava firmemente ancorado nos pressupostos da era industrial. Entre estes os autênticos líderes sabiam do pressuposto de que todo poder circula e flui constantemente. Migraram para a era pós-industrial eixando não so legado do seu exemplo, mas empresas que se adaptaram e continuam a gerar o bem estrar, propiciando trabalho e desenvolvimento coletivo em novas bases empresariais.

Poucos possuem tempo, disposição ou alcance cultural para conhecer o QUARTO DISTRITO como um todo, mesmo nos diversos aspectos apontados na presente postagem.  As necessidades básicas da maioria que transita por ele definem interesses e urgências claras das suas vidas e diferente do que a pura contemplação estética. Transeuntes que chegam de outra parte, trabalham ao modo de lugar de estacionamento e ganham outros ares. Poucos passam toda a sua vida neste lugar do planeta.

Ao rever a presente postagem com olhar mais distante, é possível constatar que as necessidades básicas - da maioria que transita por ele – são coerentes com a SALADA formal e conceitual apresentada pelo visual do QUARTO DISTRITO. Diante disto procurou-se evitar que o QUARTO DISTRITO seja mitificado e fosse apresentado e visto como um clássico. Em contrapartida esta vontade, sentimento e ação da criatura humana - neste seu estágio embrionário – também  não podem ser reduzidos e naturalizados em um eclético e imponderável juízo “GOSTEI” ou “NÃO GOSTEI”.

O distanciamento é cada vez mais possível na medida em que a era pós industrial vai envolvendo a tudo e a todos. Enquanto isto a era industrial - tão presente em épocas passadas - vai recolhendo as suas energias e métodos. Assim esta era industrial deixa um lugar para saudade, um tempo de recordações  que se mudam para a História além de signos e objetos que vão para museus.

FONTES BIBLIOGRÁFICAS
BRITES, Blanca Luz – Le kitsch et l’art populaie en Brésil – Tese - Orientação Marc Le Bot (1921-2001) - Paris:  Université de Paris I (Pantheon Sorbonne) 1975, 105 p

LAYTANO, Dante (1908-2000) Festa de Nossa Senhora dos Navegantes: estudo de uma tradição das populações Afro-Brasileiras de Porto Alegre – Curitiba: Instituto Brasileiro de Educação e Ciência (I.B.E.C.C.)-  Vol. 6  1955 – 128 p.

MARÇAL João Batista A Imprensa Operária do Rio Grande do Sul 1873-1974– Porto Alegre: do Autor – 2004, 288 p. il.

MELLO, Bruno César Euphrasio de "A cidade de Porto Alegre entre 1820 a 1890: as transformações físicas da capital a partir da impressões dos viajantes  estrangeiros"[dissertação Orient. SOUZA, Célia Ferraz de] Porto Alegre:  Faculdade de Arquitetura da UFRGS. 2010, 213 f.; il.;30 cm

 http://www.archdaily.com.br/br/tag/bruno-cesar-euphrasio-de-mello


MIRANDA, Adriana Eckert - Planos e projetos de Expansão  Urbana Industriais e Operários em Porto Alegre (1935-1961) – Porto Alegre: Programa de Pós-Graduação em Planejamento Urbana e Regional – Faculdade de Arquitetura da UFRGS Orientação de Günter Weimer – 2013, 371 p.

MONDIN, Guido Fernando (1921-2000) Burgo sem água- reminiscências do 4° Distrito -  Porto Alegre: FEPLAN,1987,  187 p.

WERTHEIMER, Mariana [Coordenação] - ESTUDO do PATRIMÔNIO de VITRAIS produzidos em Porto Alegre no período de 1920-1980. Porto Alegre: DVD- Patrocínio PETROBRAS [2009] -Indexação na Biblioteca da USP – julho 2009

FONTES NUMÉRICAS DIGITAIS
QUARTO DISTRITO de PORTO ALEGRE:  ¿ o que é isto?

A ESTÉTICA do 4º  DISTRITO: sumário do mês de fevereiro de 2014  em:

A FESTA das ÁGUAS de NAVEGANTES e de VENEZA

SOLAR COLONIAL do 4º DISTRITO ARRASADO

FRANCISCO BRILHANTE (1901-1987) homenageado

AS NECESSIDADES BÁSICAS ATRAVESSAM as DIVERSAS INFRAESTRURAS.

WELTGEIST fig. DEAL

TUDO  o QUE É SÓLIDO DESMANCHA no AR . 



01.02.2014
¿ A ÁGUA ainda é uma FESTA ?
02.02.2014
NAVEGANTES um BAIRRO de PASSAGEM e de ESTACIONAMENTO

03.02.2014
O DEMASIADO BEM QUERER. 

04.02.2014
A ESCOLA do 4º POSTO. 

06.02.2014
BURGO SEM ÁGUA. 


07.02.2014
Uma GUERRA começa e termina numa MESA. 

08.02.2014
A ESTÉTICA da DECADÊNCIA.
09.02.2014
ROMANO REIF

10.02.2014
ARTESÕES do BAIRRO NAVEGANTES COLOREM a LUZ.
HANS VEIT (1898-1985)

11.02.2014
ARTESÕES do BAIRRO NAVEGANTES e o USO do VIDRO.
CASA GENTA-SCHMIDT

12.02.2014
As LÁGRIMAS do COMANDANTE RUBEN MARTIN BERTA (1907-1966)

13.02.2014
TREM de PASSAGEIROS sem RETORNO
 SANTA MARIA – PORTO ALEGRE  04 de fevereiro de 1996

14.02.2014
QUARTO DISTRITO de PORTO ALEGRE:
¿ o que é isto?

15.02.2014
A INDEPENDÊNCIA do  BRASIL NÃO FOI GRITO

16.02.2014
SOLAR COLONIAL do 4º DISTRITO ARRASADO

17.02.2014
NAVEGANTES e o CAMINHO NOVO.

18.02.2014
GODÓI – Um COLÉGIO do QUARTO DISTRITO

19.02.2014 –
ARTE DECÔ da PRAÇA PINHEIRO MACHADO.

20.02.2014 –
SAUDADES do CAMPO.

21.02.2014 –
SAUDADES da ERA INDUSTRIAL.

22.02.2014
O QUARTO DISTRITO VOLTADO para o FUTURO

23.02.2014
No QUARTO DISTRITO BUSCA-SE ENERGIA para o FUTURO

24.02.2014
QUARTO DISTRITO: CENTRO GEOGRÁFICO da REGIÃO METROPOLITANA.

25.02.2014
O QUARTO DISTRITO na INDÚSTRIA CULTURAL do ESPORTE.

26.02.2014 –
AS NECESSIDADES BÁSICAS ATRAVESSAM as DIVERSAS INFRAESTRURAS.

27.02.2014
O QUARTO DISTRITO um MICROCOSMOS em permanente TRANSITO para se TRANSCENDER.

28.02.2014
SUMÀRIO: ESTÉTICA do QUARTO DISTRIRO


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