quinta-feira, 11 de março de 2010

CENTENÁRIO da ESCOLA de ARTES do IA-UFRGS 11


Fig. 01 –Diário de Francis Pelichek se auto-representado pintando em Torres sendo assustado por tiros.

11 – AS RELAÇÕES TUMULTUADAS entre o IBA-RS e a UNIVERSIDADE de PORTO ALEGRE.



“Os professores, aqueles que são os verdadeiros sustentáculos deste Instituto, pelo seu trabalho profícuo e honesto - pouca gente sabe disto - não tem garantia de espécie alguma dentro desta casa. Nós os professores, não temos a menor interferência, nem na administração, nem na parte técnica.O Instituto de Bélas Artes do Rio Grande do Sul é uma instituição dirigida por médicos, advogados, engenheiros, comerciantes, etc Pra demonstrar o absurdo da nossa organização administrativa lembraria o seguinte: uma Faculdade de Medicina, dirigida por uma comissão de musicos, pintores e escultores.. A sua
situação deveria ser identica á do Instituto de Belas Artes”
.


Tasso Corrêa Diário de Noticias 26.10.1933 [1]



A Universidade de Porto Alegre (UPA) foi aprovada através do Decreto Estadual n° 5.768, dos dias 20 e 28 de novembro de 1934[2]. Na lista das seis unidades formadoras originais, que figuravam no estatuto da Universidade de Porto Alegre[3], o IBA-RS era o único instituto. Esta figura era um novo triunfo legal para os docentes artistas. Mas, na prática, o caminho para atingir o controle das normas do campo artístico, institucionalizado na universidade, era ainda muito longo e só ampliou o problema da circulação do poder entre a arte e a instituição. O fato tornou-se evidente na dificuldade para convocar uma reunião da Comissão Central no dia 15 de fevereiro de 1935. Segundo o estatuto vigente, a reunião teve de ser convocada por outro membro da CC-ILBA-RS em vista do desaparecimento do Presidente do Instituto[4]. O tema em pauta era a integração efetiva do ILBA-RS com a UPA. A reunião teve de ser presidida pelo desembargador Manoel André da Rocha, já designado reitor da UPA. Não há registro dos debates que se seguiram sobre o tema da integração efetiva do IBA-RS à UPA. A conclusão foi protelatória: delega-se ao presidente ausente, João Carlos Machado, a tarefa de integrar o Instituto à Universidade[5].


A sobreposição de duas competências administrativas resultou em problemas com duríssimas conseqüências para o Instituto. Em primeiro lugar, inviabilizou qualquer providência objetiva para adaptar o Instituto ao regime da Universidade, que exigia para este efeito[6], uma série de realizações materiais e jurídicas a serem implantadas em tempo hábil. Na prática, de 1934 até o inicio de 1939, existiram dois Institutos. Um era o Instituto da Comissão Central, com a propriedade física e com uma administração paralela. Um segundo era o Instituto da Universidade. Esse tinha um pé no seu interior, pela inclusão formal através do decreto nº 5.758, de 20.11.1934 e o outro do lado de fora, pois a administração anterior não lhe havia passado o comando institucional e não lhe pertencia o efetivo usufruto do prédio. Esse período foi atravessado por uma espécie de força de inércia proveniente do peso do contrato com o estudante, da teleologia imanente do Instituto e que não foram rompidos.




[1] DISCURSO de TASSO CORRÊA como PARANINFO no TEATRO SÃO PEDRO em 24/10/1933. DIÁRIO DE NOTÍCIAS – Porto Alegre : Diários Associados, dia 26.10.1933 p.4


[2] - O diploma que Flores da Cunha assina fundação da UPA foi desenhado por Francisco Bellanca


[3] - Pelo Decreto Estadual n.º 5.758 de 20.11.34 “Art. 2º - A Universidade de Porto Alegre será constituída dos seguintes estabelecimentos oficiais: a) Faculdade de Medicina com as suas escolas de Odontologia e Farmácia; b) Faculdade de Direito, com a sua Escola de Comércio. c) Escola de Engenharia; d) Escola de Agronomia e Veterinária: e) Faculdade de Educação, Ciência e Letras; f) Instituto de Belas Artes”.


[4] - Não foi encontrada ainda uma explicação lógica para esse sumiço da alta cúpula do Instituto num momento de tal gravidade. Na verdade o Presidente, João Carlos Machado alega doença. Ele figurava na foto da fundação da UPA como Secretário de Estado dos Negócios de Interior e Exterior, ao lado do Interventor Flores da Cunha e Manuel André da Rocha, no dia 20 de novembro de 1934, portanto quatro meses antes dessa reunião. A sua ausência na discussão da inclusão efetiva do Instituto na UPA criou um enigma que talvez poderia ser desvendado na ação política de João Carlos Machado na Interventoria do Estado.

[5] Mas nos documentos da AGIA-UFRGS não existe menor registro posterior a essa data da presença de João Carlos Machado no ILBA-RS. Ele como Secretário do Interior e Justiça tinha sob a sua competência a universidade local que estava nascendo. A Secretaria de Educação e Saúde Pública só foi instalado no RS com Estado Novo em 1937 e um dos motivos da demissão do primeiro reitor da UPA.

[6] Neste ponto seria oportuno ler novamente o Decreto Federal nº 1.232 , 02 de janeiro de 1891, que permite e o que se exigia, para a criação de uma Escola Livre nos primórdios do regime republicano brasileiro. Este texto legal, apesar de pouco divulgado, estava subliminarmente presente tanto na mente dos administradores como dos legisladores que tratavam deste tema.



Fig. 02 – A estudante Alice SOARES faz o retrato de Tasso Corres, ao vivo, para o Centro Acadêmico que

recebeu o nome de Tasso Corrêa em reconhecimento ao trabalho deste lider

Revista do Globo – nº 342 p. 20 Porto Alegre 26.06.1943.


Os primórdios da organização autônoma do movimento estudantil, no IBA-RS, na prática, chegaram após a Revolução de 1930 e foram registrados numa reunião da Comissão Central do ILBA-RS, ocorrida em 16 de junho de 1932[1]. Nesta reunião os docentes apresentaram um pedido de formação de uma comissão para a adequação do IBA-RS ao paradigma da universidade. Nessas duas iniciativas existem fortes indícios que ambas partiam de Tasso Corrêa que ainda pertencia à classe estudantil, como acadêmico concluinte da Faculdade de Direito e, como tal, conhecedor do espaço que cabia à organização estudantil no paradigma da universidade do decreto nº 19.851de 11.04.1931. Tasso celebrou a sessão inaugural do «Grêmio Estudantil», fundou a entidade, e depois procurou legitimar seus atos, junto à autoridade constituída[2].

Os lideres parecem indispensáveis, mesmo nas democracias mais complexas e em funcionamento perfeito nas quais o cidadão pode ver representada a sua própria concepção de espaço público, papel para o qual o intelectual julga-se preparado e ocupa essa função com aparente naturalidade[3]. Especialmente uma instituição deve encontrar essa liderança numa pessoa que encarne e tenha capacidade para expressar o maior número possível de identidades [4]. Essa expressão, além da coerência e da capacidade de representar, em si mesmo, o poder da maioria, necessita de uma criteriosa busca de quem consiga levar essa coerência e competência em toda a plenitude de uma convicção interna. Uma das características da pós-modernidade é a descoberta do papel que os lideres exerceram nas democracias durante a modernidade[5].

Coube a Manoel André da Rocha (1860-1942) o papel de liderar a organização da universidade no Rio Grande do Sul. Homem dedicado às Ciências Jurídicas[6] - diretor da Faculdade Livre de Direito de Porto Alegre - encontrou na arte uma das suas paixões e um lugar institucional no Instituto de Belas Artes para o exercício de sua coerência na capacidade de conjugar o espaço jurídico com o espaço criativo da arte. Essa sua paixão pode ser observada em suas intervenções ponderadas e amplas, na sua assiduidade na presença nas reuniões do ILBA-RS. Ele foi indicado como membro de Comissão Central no dia 20 de fevereiro de 1925, juntamente com Leonardo Truda, Rubens de Barcelos, José Gertum, o poeta Eduardo Guimarães e Lindomberto Rache Vitello. Mas antes dessa data, ele já frequentava as reuniões da Comissão Central como se percebe na ata da sessão do dia 22.03.1924 ao lado de outro desembargador que era Florêncio de Abreu.




[1] - “O snr. Presidente apresentou à Comissão Central um ofício da Diretoria do «Grêmio dos Estudantes do Conservatório», comunicando a sua fundação e a realização da sessão inaugural no dia 3 do corrente, em uma das salas do Conservatório Livro das atas nº II da CC-IBA, sessão de 16.06.1932, ff. 33f e 33v

[2] Essa maneira de proceder não era de fato uma quebra institucional. A sua ação remetia para a origem do próprio Instituto, quando muitas barreiras também tiveram que ser ultrapassadas e os tabus transformados em totens, ampliando o espaço em favor da arte, ainda que, para os padrões da época, fosse impossível pensar no estudante como um agente com voz e vez, conforme imaginava, em 1928, e propunha Olinto de Oliveira.

[3] - Pécaut descreveu essa naturalidade (1990, p. 189.) nesse contexto quando “os intelectuais agiram como sociedade e como Estado, garantindo o vaivém entre uma situação e outra”.

[4] - Existe uma série de formulações teóricas nas quais se faz patente o papel do líder na construção da ponte entre o EU e o OUTRO e assim abrir um espaço para a emergência do espaço público onde o poder pertence ao povo. Assim “o meu teste como cidadão democrático é quão plenamente o todo é expresso em mim ou através de mim”. (Follet in Carvalho, 1979 :60) ou “a democracia é povo planejando as contingências nas quais irá viver”(Skinner, 1980 : 207). “A democracia abriga um bazar de sistemas políticos”. (Platão : 1983 308) “A democracia possui a capacidade de questionar as suas instituições e abrir-se para história sem possuir garantias previas” (Chaui in Lefort, 1983 : intr) “Duas coisas são necessárias a uma democracia: públicos articulados e informados líderes políticos que, se não são homens de pensamento, sejam pelo menos razoavelmente responsáveis perante o público informado que exista. Somente quando públicos e lideres são responsáveis e de responsabilidade, podem as questões humanas ser submetidas a uma ordem democrática, e somente quando o conhecimento tem importância pública, é possível essa ordem. Somente quando o pensamento tem uma base autônoma, independente do poder, mas poderosamente ligada a ele, pode exercer sua força no condicionamento dos assuntos humanos”. Wright Mills, 1975, pp.410/1

[5]- Para Almeida Prado, (1955, p. 367) o LIDER “é o regente frente a orquestra de competentes professores, é capaz de transformar os conflitos em estímulos para a idealização e a solidariedade”. Para o italiano De Masi (1997: 20) especializado no estudo de grupos que forma empresas “o líder fundador é capaz de uma dedicação heróica à instituição Carismático e competente acima de qualquer expectativa. Atento em alimentar a memória e a história do grupo”. Para o jovem sociólogo americano, desaparecido precocemente, Wright Mills (1975, pp.410/1) o LIDER possui um papel primordial na DEMOCRACIA Duas coisas são necessárias a uma democracia: públicos articulados e informados, além de líderes políticos que, se não são homens de pensamento, sejam pelo menos razoavelmente responsáveis perante o público informado que exista. Somente quando públicos e lideres são responsáveis e de responsabilidade, podem as questões humanas ser submetidas a uma ordem democrática, e somente quando o conhecimento tem importância pública é possível essa ordem. Somente quando o pensamento tem uma base autônoma, independente do poder, mas poderosamente ligada a ele, pode exercer sua força no condicionamento dos assuntos humanos”.

[6] - Manoel André da Rocha foi docente da disciplina Direito Comercial de 1 de abril de 1902 até 15 de novembro de 1937. Correio do Povo. Caderno de Sábado. Volume CXI, ano VIII, no 611, 19.04.1980, p. 14. Além disso ele exerceu diversos cargos públicos como o de Presidente do Superior Tribunal do Estado, de 1921 até 1935.


Fig. 03 – A estudante Maria Annita TOLLENS LINCK trabalha com o modelo vivo de rua.

Revista do Globo – nº 342 p. 19 - Porto Alegre 26.06.1943.


André da Rocha participou ativamente da redação do estatuto ILBA-RS, de 1927, no qual foi incluída a Congregação dos Professores pela primeira vez em algum documento legal do Instituto. No dia 11 de janeiro de 1928, André da Rocha foi designado para conferir o titulo de benfeitor do ILBA-RS a Borges de Medeiros, que terminava o seu 5º mandato e que iria entregá-lo a Getúlio Vargas, no dia 25 desse mês.

A competência administrativa de Tasso Corrêa para exercer a direção do IBA-RS, certamente não nasceu no dia 27 de abril de 1936, quando ele foi designado pelo decreto estadual nº 6.193 do interventor estadual Gen. Flores da Cunha Ele já exercera a sua competência administrativa em 1922[1], aos 21 anos e no 1º ano de sua docência no IBA-RS. Aprofundou as suas concepções administrativas durante a revolução de 1930, e em especial com os decretos sobre a universidade, editados enquanto cursava as Ciências Jurídicas em Porto Alegre. Em 1932, engajou-se, ao lado de vários colegas, no estudo das novas potencialidades do paradigma da universidade para o campo das artes. No dia 24 de outubro de 1933 enfrentou temerariamente, em pleno Theatro São Pedro, a poderosa CC-IBA-RS. Expulso do ILBA-RS, foi readmitido através da pressão dos seus alunos e colegas. Em 1934, reuniu-se com os docentes do Conservatório para redigir um estatuto provisório[2] para o Instituto se adaptar aos decretos universitários. O projeto dos docentes não foi aprovado. Melhor do que a aprovação de um estatuto, o próprio IBA-RS foi incluído na UPA, no dia 20 de novembro de 1934. Inclusão que exigiria ao IBA-RS um estatuto coerente com a universidade como aquele não aprovado pela CC-IBA-RS.

Para efeitos legais Tasso Corrêa criou. no lugar da Escola de Artes (EA), o Curso de Artes Plásticas (CAP)[3]. Convidou, no início do ano escolar de 1936, o seu irmão, o arquiteto Ernani Dias Corrêa[4], para docente do Curso. Esse lhe sugeriu a abertura da área da Arquitetura no Instituto. A introdução dessa nova competência do Instituto deu-se pela disciplina de Arquitetura Analítica[5], obrigatória no ENBA para as Artes Plásticas e a Arquitetura[6]. No Instituto era inédita. Paralelamente à Arquitetura, abriu espaço para a História da Arte e de Estética para a qual convidou o crítico de arte e jornalista Ângelo Guido Gnocchi[7]. Ernani e Ângelo Guido começaram a lecionar no dia 15 de maio de 1936[8], portanto, logo após a nomeação oficial de Tasso Corrêa para a direção no dia 27 de abril.



[1] - Nesse ano ingressou como professor de Piano no ILBA-RS. Aos 22 anos, foi diretor interino do Conservatório do ILBA-RS, para no cargo que pertencera a Araújo Vianna. Com Guilherme Fontainha, no dia 10 de março de 1924, fundou o Conservatório de Música da cidade de Rio Grande. No dia 04 de dezembro de 1926 estava oferecendo o seu curso superior de Piano em Porto Alegre Conforme Pereira registra (1967, p.21) Tasso mantinha a Sociedade de cultura Musical”. O seu irmão mais velho, Ernani Corrêa, oferecia através da revista Madrugada, a sua empresa de arquitetura e de construção, na Rua Dr. Flores CORRÊA, Ernani: oferece escritório.

[2] - Congregação de Música propõe a Comissão Central a adaptação do IBA-RS aos Decr. 19.851 e 19.852 de 11.04.1931

[3] - Curso de Artes Plásticas substitui a antiga Escola das Artes do Instituto de Belas Artes. A desaparecer o posto de Libindo, que articulava e solicitava novas contratações, essa passaram à iniciativa exclusiva de Tasso Corrêa.

[4] - Ernani Dias Corrêa, nasceu em Uruguaiana em 1900, um ano antes do seu irmão de Tasso. Juntos fazem a sua formação em São Paulo, Fortaleza e no Rio de Janeira. Ernani formou-se engenheiro-arquiteto na ENBA em 1924, na mesma turma de Lúcio Costa e de Atílio Corrêa Lima o urbanista de Goiânia. Em 1926 está estabelecido em Porto Alegre, onde mantém escritório de arquitetura e de construção. Mais adiante se tornou funcionário da Secretaria de Negócios das Obras Públicos intervindo na urbanização de Iraí, Arroio do Meio e da Vila Floresta em Porto Alegre. Em 1936 Tasso Corrêa o contrata para o Instituto sem que ele se desfizesse do cargo no governo do Estado.(Dados do currículo da pasta de Ernani do Arquivo do IA-UFRGS) Ernani não se inscreveu para o concurso de catedrático no final de 1938.

[5] - Programa da cadeira: Arquitetura Analítica Ernani Corrêa

[6] - Decreto-Lei Federal no 22.897 de 06.07.1933, artigo 7 - inciso XV.

[7] - Programa de História da Arte Prof Ângelo Guido{139Progr} A História da Arte figurava nominalmente no currículo desde o início da Escola de Artes. Há registros de convites a Fábio de Barros para lecioná-la. Como membro da Comissão Central, médico psiquiatra e jornalista, não teve tempo, ou intenção, de transformar esse espaço acadêmico numa disciplina regular.

[8] - Ordens de Serviço de Tasso Corrêa, de 1936, comunicado aos alunos a inclusão dessas disciplinas no seu currículo.


Fig. 04 - Grupo de docentes do Curso de Artes Plásticas contratados na época (1934-1939) em que o IBA-RS encontrava-se na administração da Universidade de Porto Alegre (UPA).

Da esquerda para a direita do observador: João Fahrion, Benito Castañeda, Tasso Corrêa, Fernando Corona, Ângelo Guido, José Lutzenberger, Luis Maristany de Trias e Ernani Corrêa.

http://www6.ufrgs.br/acervoartes/modules/xcgal/displayimage.php?pid=16&album=1&pos=19

A constituição do grupo de docentes do Curso de Artes Plásticas, sob o controle direto de Tasso, foi lenta e com grandes contratempos. Libindo Ferrás atuou pela última vez no Instituto, durante o ano de 1937, lecionando as suas disciplinas e agora como simples docente, aposentando-se no final desse ano. Os atos oficiais do contrato[1] do silencioso João Fahrion ainda são bastante vagos[2], sabendo-se de concreto que ele ocupou o cargo e as disciplinas escolares de Francis Pelichek, falecido em 01.08.1937.

A vantagem para o docente seguir o paradigma universitário era a passagem dos contratos avulsos e anuais para a estabilidade profissional. No CAP a maioria dos contratos era anual, como se verificou em oficio à UPA no início do ano de 1938[3].

A passagem dos contratos anuais para estabilidade dos professores das Artes Plásticas gerou um verdadeiro tumulto. É o que se depreende da leitura da primeira ata do CTA[4] que se instalou no dia 25 de abril de 1938. Nela, Tasso Corrêa trazia ao Conselho, com o aparente objetivo de apreciação, a contratação definitiva como catedráticos dos professores que ele fizera ‘ad referendum’ e já nomeados pelo reitor e pelo secretário dos Negócios do Interior e Exterior do Rio Grande do Sul. A grande argumentação de Tasso em favor do seu ato era que:

“Animado, unicamente pelo propósito de bem attender aos nteresses do ensino do Instituto, indicara ao Governo os nomes dos citados profissionais, vastamente conhecidos através dos seus trabalhos e [...] que depois de haver o expediente transitado pelas repartições competentes, foi autorizada a lavratura dos contratos em questão [ ...] datado de 12 do mez corrente”.

Os conselheiros, surpreendidos pelo fato de terem sido chamados apenas para referendar atos já consumados, procuraram elaborar a questão. O que os surpreendeu, especialmente, era a contratação de Fernando Corona, que não escondia de ninguém, que apenas havia cursado 4º ano primário da educação formal, apesar de sua imensa capacidade de produção plástica e arquitetônica. O conselheiro Antônio Corte Real tentou argumentar contemporizando e evitando contrariar qualquer uma das duas partes.


“Apesar de existir um Decreto Federal, permitindo a inscripção de candidato, sem diploma profissional, para concursos de musica ou artes plásticas, julgo que só deveriamos lançar mão de taes prerrogativas em casos excepcionais. Este é o caso do aproveitamento do snr. Fernando Corona, indicado para a cadeira de ‘Esculptura e Modelagem’. Levando em conta o seu
inconfundível valor artístico, e não existindo em nosso Instituto, tal cadeira, não há possibilidade de prejudicar alumnos formados por esta casa, saúdo portanto de indiscutível justiça a sua indicação”
[5].


A conselheira Nair Sgrillo[6] não se deixou convencer, nem pela autoridade do diretor, do sistema que ele representava e nem pelos argumentos apaziguadores do seu colega conselheiro. A ata daquele mesmo dia registrava que ela ‘protestava e que justificaria o seu voto na próxima reunião’. Três dias depois, ela trazia o seu voto escrito que fulminava os três novos contratados realizados ‘ad-referendum’. Nessa sessão, ela leu o seu voto:

“Considerando abertos os concursos de provas para o preenchimento definitivo das cadeiras em questão, não estou de acordo com o contrato dos professores Luiz Maristany de Trias, José Lutzenberger e Fernando Corona, pois há mudança de methodo, o que virá acarretar grandes prejuízos aos alumnos”[7].


Após essa leitura, Tasso Corrêa desqualificou esse voto, encerrando definitivamente o assunto e fechando os seus flancos que havia exposto, dizendo: “Tendo esse assumpto sido votado na sessão anterior e não constando mais da ordem do dia, a justificação iria constar da acta, porém não como voto, mas como expressão da opinião da referida Conselheira”[8]. O setor da Música, do qual os três
docentes do Conservatório procediam, já possuía uma tradição
[9] e um profissionalismo institucional.




[1] - Correspondência emitida e recebida (minutas) até 19/07/1940{054Corr}

[2] - Existe um oficio de nº 182, encaminhado à reitoria da UPA pelo Instituto de Belas Artes, datado de 24. 08.1937 ‘remettendo proposta de contracto do Prof. João Fahrion’ registrado no Livro de Protocolos nº 1 iniciado em 1936. Outro dado que confirma a data de entrada de Fahrion no IBA. é o que se encontra no livro de atas do CTA com a data de 25.04.1938 no qual se faz a referências aos professores do ano de 1937. “O snr. Doutor Diretor disse que há cerca de treis meses, providenciando no preenchimento provisório de treis cadeiras vagas do Curso de Artes Plásticas e julgando ser do interesse do Instituto de Belas Artes que essas cadeiras fossem entregues a artistas de nomeada, capazes de, pelo seu valor e trabalhos profissionais, tornar mais prestigioso o estabelecimento, como, aliás, já acontecera no ano anterior, em algumas dessas cadeiras foram, com grande proveito para o ensino, entregues a profissionaes de innegavel conceito, que por força da lei das accumulações, optaram por cargos em que tinham maiores vantagens e estabilidade” Contudo a presença de Fahrion no Instituto não é objeto da discussão do CTA do dia 25.04.1938. Como ele não está inscrito para o concurso para cátedra no final de 1938 como o fizeram Fernando Corona, José Lutzenberger e Maristany de Trias. Uma outra hipótese é que Fahrion simplesmente preencheu ao natural um posto que era ocupado por Francis Pelichek e que, portanto Tasso não necessitava lutar para ampliar os postos no Curso de Artes Plásticas. Já no dia 16 de janeiro de 1939 João Fahrion é um dos três membros do CTA. ao lado de Ângelo Guido e Fernando Corona. Após esses atos não há menor questionamento sobre sua presença no IBA.

[3] - No dia 26 de janeiro de 1938 o secretario do IBA Waldemar Lübke oficia ao Secretário Geral da Reitoria da UPA prestando conta do quadro docente do ano de 1937. “Libindo Ferrás optou pela sua situação de funcionário aposentado de Correios e Telégrafos; Eng. Civil Márcio Curio Duarte (interino) optou pelo seu cargo de engenheiro da Prefeitura Municipal; Ângelo Guido Gnocchi (interino) optou pelo seu cargo de redator da Imprensa Oficial; Eng. Ernani Dias Corrêa (interino) optou pelo seu cargo de engenheiro das Secretaria das Obras Públicas; João Fahrion (interino)”.Em outro oficio de nº 303, expedido no dia 17.03.1938 da secretaria do IBA-RS para a UPA existe o ‘pedindo a requisição de Ângelo Guido’.Num outro oficio expedido no ano de 1938 estão discriminados os docentes que devem receber 1.200$000 mensais ou 14.400$000 anuais com as suas respectivas disciplinas João Fahrion: professor de Desenho, Desenho de Modelo Vivo e Pintura. Luis Maristny de Trias – contratado – professor de Anatomia Artística; Eng. José Lutzenberger – contratado – Professor de Geometria Descritiva e Perspectiva e Sombras; Ângelo Guido – adido – professor de História da Arte; Fernando Corona – contratado – professor de Escultura e Modelagem Estava vaga a cadeira de Arquitetura Analítica e Arte Decorativa. (Livro de protocolos nº 1 do IBA iniciado em 1936) {052a}


[4] - Livro I Atas do Conselho Técnico Administrativo CTA, sessão do dia 25.04.1938, f. 2v.

[5] - Livro das atas nº I do CTA-sessão do dia 25.04.1938 - f. 3f

[6] - SGRILLO, Nair. No Relatório de Olinto de Oliveira de 1912 (pp.26-27) Nair Sgrillo consta como tendo conquistado em 1911 a 1a menção, tanto no Curso Elementar do Conservatório como no concurso de solfejo.

[7] - Livro de atas nº I do CTA - sessão do dia 28.04.1938 - f. 5f

[8] - Livro da atas nº I do CTA, sessão do dia 28.04.1938- f.5f.

[9] - No Conservatório, a História da Música foi implantada, já na década de 1920, por Assuero Garitano, e continuada, a partir de 1938, por Augusto Souza Júnior. In Designação de Augusto Souza Júnior.


Fig. 05 – Fernando CORONA no meio de estudantes do Curso de Arquitetura do IBA-RS e com os resultados da aula de Maquetes.

Álbum fotográfico da disciplina de Maquetes do Curso de Arquitetura do Instituto de Belas Artes e com a direção de Fernando Corona


Mas nas Artes Plásticas se fosse recusado qualquer um dos três artistas, haveria ausências irreparáveis na institucionalização da Pintura sem Luiz Maristany de Trias, na Arquitetura sem José Lutzenberger[1] e na Escultura sem Fernando Corona, no Rio Grande do Sul, como se poderá verificar, entre 1936 até 1962, na história do Curso de Artes Plásticas no IBA-RS. Contudo não era possível afastar o fantasma do que estava acontecendo, naquele momento de 1938, na Espanha e na Alemanha donde provinham estes mestres.

Em todo caso, os três nomeados acima, estarão inscritos no concurso em dezembro de 1938 do qual não foi encontrado o registro da realização, talvez pela exclusão da universidade local, no dia 05 de janeiro de 1939, do próprio Instituto de Belas Artes do Rio Grande do Sul.

VEJA MAIS:

DOCUMENTOS – Arquivo Geral do IA-UFRGS

Antiga Fac de Medicina – CAMPUS CENTRAL – UFRGS

Contato Fone: (0xx51) 3308 3391 E-mail: ahia@ufrgs.br


TESE : “Origens do Instituto de Artes da UFRGS” texto integral em http://www.ciriosimon.pro.br/aca/aca.html


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